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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: JORGE FERNANDO

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         No início de 2005 eu o conheci em uma situação bastante inusitada: era o meu primeiro dia no Projac, no Rio de Janeiro, convidado pela Rede Globo de Televisão para me apresentar à equipe que preparava na época uma nova telenovela para o horário das 18 horas. Tratava-se de Alma Gêmea (inicialmente Alma Serena), que contaria a “saga” de uma mestiça, Serena (interpretada por Priscila Fantin), em busca de um grande amor. Escrita por Walcyr Carrasco, com a colaboração de Thelma Guedes, Alma Gêmea impunha um desafio à Globo: escapar dos estereótipos verificados em outras produções da emissora no tocante às representações indígenas (como Uga Uga, por exemplo). E lá fui eu, passar por uma sabatina numa ensolarada manhã carioca de março, munido de duas malas grandes contendo todo o material que haviam me solicitado: livros, textos avulsos, gravações, desenhos, cartilhas e outros tantos materiais sobre os Kadiwéu do Pantanal de Mato Grosso do Sul. A ideia era que minha convivência com os “cavaleiros/ artistas” por quase uma década pudesse inspirar a elaboração dos trajes de cena, da caracterização, da aldeia cenográfica (localizada na reserva ecológica do Camorim, em Jacarepaguá) e outros aspectos do “povo de Serena”, uma jovem criada em aldeia indígena por sua mãe e filha de um não indígena. Sem saber que eu era o Giovani, Jorginho (assim o chamávamos) se aproximou de mim e perguntou pelo “doutor Giovani”, dizendo que eu deveria ser o assistente do tal “doutor”. Sem me dar tempo de responder coisa alguma, uma vez que eu estava hipnotizado por aqueles profundos olhos azuis, Jorge Fernando foi falando com energia pelos cotovelos (como era seu costume) e disse que tinha visto o currículo do “doutor Giovani” e que imaginou que fosse um ancião, um daqueles antropólogos/ arqueólogos de filmes de aventuras. Pensei rápido e decidi que faria parte do faz-de-conta proposto pelo “mago da comédia na Televisão” e afirmei ser o assistente do pesquisador e que tinha trazido até o Módulo Amarelo (onde faríamos a reunião) os materiais do “doutor”, que estavam nas malas. Jorge Fernando, então, me perguntou onde estaria o aguardado candidato a consultor da telenovela que ele dirigiria e eu (com muita cara de pau) disse que o “velhote” havia ficado na Portaria 3, dada a dificuldade de caminhar. Jorginho me colocou para dentro e me indicou onde sentaria o consultor e eu aproveitei para ajeitar na mesa todo o material que levara. Em volta dela, técnicos, assistentes e alguns atores curiosos para saber o que estava acontecendo. O diretor avisou que eu era o assistente e que dali a pouco o “doutor Giovani” chegaria. Eu arrumei tudo e saí, pensando que era uma grande loucura o que estava fazendo, mas que não havia maneira de voltar atrás. Dei um tempo fora da sala de reunião, voltei a entrar e me dirigi ao lugar que me era destinado. Comecei a falar em língua Kadiwéu e uma das assistentes de Jorginho perguntou que tipo de droga eu tinha tomado. Dei uma pausa e traduzi para o Português a minha curta fala (Bom dia, eu sou o professor Giovani, o meu nome em Kadiwéu é Oyatogoteloco, sou professor de História). Expliquei que eu era o próprio Giovani e que não tivera tempo de dizer a Jorge Fernando que houvera uma confusão sobre a minha pouca idade, apesar do extenso currículo. Ele me olhou com aqueles olhos azuis hipnotizantes, abriu um largo sorriso, me deu abraço e me disse que eu estava contratado! Apesar disso, eu tinha que dar a palestra combinada e ali fiquei durante quatro horas (o previsto eram apenas duas) falando sobre a vida em uma aldeia indígena e como poderíamos realizar um excelente trabalho em equipe. Nos nove meses seguintes àquela reunião, acompanhei de perto todo o trabalho de quem chamava de “maestro”. Afinal, ele era o regente de uma “orquestra” de mais de 150 pessoas que diariamente trabalhavam incansavelmente para levar ao ar a telenovela que se tornou o maior sucesso de audiência de todos os tempos na faixa das 18 horas. Estive nas gravações de Bonito (Mato Grosso do Sul) e de Carrancas (Minas Gerais), além de ter acompanhado a maior parte dos trabalhos realizados em estúdio e na cidade cenográfica no Rio de Janeiro. Jorge Fernando de Medeiros Rebello foi um ator e diretor de televisão brasileiro brilhante e eu tive a honra de compartilhar de sua amizade e de seu bem-querer. Eu o vi no Teatro e na Televisão, em cena e nos bastidores, e até fui dirigido por ele, fazendo figuração na nova versão da telenovela Ti Ti Ti (2010-2011)! A partida do “maestro” na noite de ontem não foi surpresa para mim, pois eu havia sonhado com ele algumas vezes e sabia o quanto estava sofrendo. O coração daquele que nunca parava decidiu parar e, assim, nos deixou sem riso e com enormes saudades. A esta brilhante estrela eu só posso dizer “Muito obrigado!” e pedir que continue a iluminar os nossos caminhos, em particular os meus, agora de aprendiz de ator e de professor de Teatro...

* A foto é de André Luís, um dos operadores de câmera de Alma Gêmea.

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