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Giovani José da Silva

HISTÓRIAS DE ADMIRAR: SOBRE “EXPERIÊNCIAS DOCENTES DE SUCESSO”

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      Li com certa apreensão (e enorme desgosto) que na universidade onde atualmente trabalho, a Unifap (Universidade Federal do Amapá) vai ocorrer na próxima semana um debate sobre “experiências docentes de sucesso” em História. Até aqui nenhum problema com o título da tal mesa de debate, mas fui informado de que os participantes são professores (quando não donos) de cursinhos pré-vestibular/ Enem em Macapá, capital do Estado! Então, fiquei imaginando um país onde a Educação Básica é (e sempre foi) tratada como “lixo” há tanto tempo, que quando um professor consegue “adestrar” com eficácia  seus alunos para marcar a alternativa (correta, incorreta etc.) em uma prova, ele pode ser considerado um docente de “sucesso”! Onde estaria o sucesso? No dinheiro ganho com tais cursinhos? Na “decoreba” de datas, personagens e fatos desconexos por incautos alunos? Nas músicas e outros artifícios utilizados para que o aluno memorize direitinho as lições? Na falência/ no insucesso da Educação Básica brasileira, que não consegue formar um grande contingente de gentes que sabem com proficiência ler, escrever, interpretar um texto, contar? Fiquei pensando nos esforços que eu e muitos colegas Brasil afora temos empreendido para contribuir na formação de professores de História por meio de práticas e metodologias – aliadas a teorias de aprendizagem e da ciência de referência (História) – cuja maior preocupação é trabalhar com operações conceituais (saber), operações atitudinais (ser/ sentir) e operações procedimentais (fazer). Não, caros leitores, um professor “adestrador” jamais saberá o que é promover em seus alunos os caminhos que partem da heteronomia (dependência extrema ou relativa do Outro) e vão na direção da autonomia plena (quando o Outro se torna parceiro cooperativo e não mais um competidor ou alguém que nos direciona). Tal profissional pode até ser considerado de “sucesso”, inclusive dentro de uma universidade, com sua visão canhestra, antiquada e eurocêntrica sobre o que é História, mas não saberá o doce/ o amargo sabor da descoberta de que outras histórias são possíveis e, mais do que isso, urgentes em um país racista e desigual como o Brasil. Somente seremos de fato um país justo, eticamente diverso e igual se tivermos coragem de nos olharmos no espelho de Heródoto e reconhecermos nossos traços indígenas, negros e outros, inclusive brancos/ europeus. O Ensino de História, quem diria, virou mercadoria e as pessoas parecem absolutamente despreocupadas com isso... Fiquei pensando em minhas experiências com o Curso Pré-Vestibular/ ENEM entre indígenas Kadiwéu do Pantanal de Mato Grosso do Sul, no qual trabalho desde outubro de 2017 como voluntário, e que vive de doações e colaborações. Nosso único objetivo é o de ajudar os Kadiwéu a vencer a barreira imposta pelos exames de “admissão” nas universidades/ faculdades. Penso que ter colocado no Ensino Superior 1/5 dos alunos indígenas inicialmente matriculados no Curso Pré-Vestibular poderia ser considerado uma experiência de “sucesso”... Mas, talvez não seja! Assim como não deve ser considerado “de sucesso” ter recebido o prêmio de melhor professor da escola púbica brasileira, em 2001 (Professor Nota 10) ou o Educar para a Igualdade Racial e Étnica – Ensino Médio (CEERT), em 2004, ou ainda o Prêmio Rubens Murillo Marques, da FCC – Fundação Carlos Chagas, em 2016, dentre outros. Fui o promotor de uma das cinco práticas de ensino consideradas mais bem-sucedidas em licenciaturas de todo o Brasil há três anos. A Faculdade de Educação de Harvard (sim, leitores, a Harvard), dos Estados Unidos da América, está interessadíssima em conhecer os “objetos biográficos de memória” e em breve lançará um livro em parceria com a FCC contando a minha experiência pedagógica e a de outros colegas espalhados pelo país. Minha universidade, a Unifap, prefere ignorar tudo isso e chamar um grupo de professores “concurseiros” que passam os dias a lotar auditórios, ensinando macetes para que candidatos se saiam bem em exames/ provas. Nada contra essas gentes e seu “sucesso” e espero que não esteja parecendo que escrevi a coluna nesta semana com mágoa, inveja ou ressentimento. Ocorre que me preocupa o que estamos ensinando para jovens em formação ou mesmo para mestrandos do ProfHistória – Mestrado Profissional em Ensino de História: que ser um professor de História de “sucesso” é fazer com que pessoas decorem coisas absolutamente sem sentido, sem significado para suas vidas, uma história sem cores, sem cheiros, insípida e, portanto, insossa! Uma história do triunfo do capitalismo, em que o “sucesso” é medido pelo dinheiro acumulado ou pelos “likes” conquistados em alguma rede social. Como diria dona Gregoria, a mais bela flor da fronteira e minha mãe, “Deus nos livre” de tal sina! Prefiro, como o professor Darcy Ribeiro, estar ao lado dos fracassados, dos esnobados, dos vilipendiados. Somente assim terei a certeza de ter combatido o bom combate pelo Ensino de História e de não estar ao lado dessas gentes que prezam tanto suas “experiências docentes de sucesso”...

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