Giovani José da Silva
Publicado em 01/02/2020 às 15:42
Atualizado em 10/09/2026 às 14:04
Mais um semestre letivo irá se iniciar em breve para mim e hoje gostaria de escrever sobre o que tem sido minha vida profissional ao longo dos últimos 28 anos, com algumas interrupções: lecionar! Já discorri sobre o ofício docente em outros artigos na coluna Histórias de admirar, mas sinto a necessidade de lhes contar sobre algumas aflições e muitas alegrias que tenho na carreira. Me iniciei em sala de aula em outubro de 1991, na Escola Estadual Cândido Mariano, em Aquidauana, substituindo um conhecido professor de Química na cidade! Sim, Química, embora estivesse no primeiro ano da Licenciatura em História! Vinha de São Paulo para Mato Grosso do Sul e não encontrava emprego, até que surgiu a oportunidade de lecionar (me recuso a dizer que “dou aulas”, pois não se trata de “dar” e, sim, de “vender” a força de trabalho). Em 1992/ 1993 fui contratado pelo Instituto de Educação Aquidauanense, minha primeira experiência como professor de História! E que experiência! Voltei a lecionar em São Paulo, mais precisamente em Arujá e depois na capital paulista, em escolas públicas e particulares entre 1995 e 1996. De 1997 a 2004 foi a vez da Escola Municipal Indígena “Ejiwajegi” – Pólo e Extensões, localizada na Aldeia Bodoquena (Reserva Indígena Kadiwéu, Porto Murtinho), onde pude desenvolver um trabalho pedagógico que me valeu o título de melhor professor da escola pública brasileira, em 2001. Finalmente, em 2007, ingressei no Ensino Superior, primeiramente como substituto na UFMS/ Três Lagoas (2007-2008) e, depois, como efetivo, também na UFMS, desta vez no Campus de Nova Andradina (2009-2013). Desde 2013 sou professor concursado de Metodologia do Ensino de História na Universidade Federal do Amapá (Unifap), onde completarei 7 anos de permanência em junho. O que aprendi nesses anos todos, seja na Educação Básica ou no Ensino Superior? Que nossos estudantes precisam ser respeitados e que esse respeito se traduz, dentre inúmeras posturas, em pontualidade, assiduidade e compromisso social por parte do professor. Que se os alunos apresentam dificuldades de aprendizagem, devemos mudar as estratégias/ metodologias e não os obrigar a se adequar ao que não é apropriado para eles. Aprendi, também, que não bastava eu conhecer bem a ciência de referência (no meu caso, História) e seus conteúdos se eu não tivesse em meu horizonte a necessidade de saber/ conhecer conceitos, atitudes e procedimentos importantes para o desenvolvimento do raciocínio histórico. Além disso, precisei aprender teorias de aprendizagem, envolvendo-me, especialmente, pelas ideias do francês Célestin Freinet (1896-1966) e do brasileiro Paulo Freire (1921-1997). O primeiro, o mestre do bom senso e do labor pedagógico e o segundo tão citado e pouco (efetivamente) colocado em prática em suas propostas de emancipação e autonomia pedagógicas. Mais recentemente tenho me deixado encantar pelas palavras escritas e faladas de Catherine Walsh e sua proposta de interculturalidade crítica. Ao longo dos últimos (quase) 30 anos, caros leitores, recebi em minhas salas de aula – seja na “roça” ou nas cidades –, alunos e alunas que não sabiam ler um texto, interpretá-lo e, muito menos, compreendê-lo e/ ou criticá-lo. O desafio para mim sempre foi pensar em atividades que provocassem a curiosidade, o desejo de aprender, a necessidade do debate no lugar da discussão estéril. Aprendi, também, especialmente com Freinet, que se constrói Educação de qualidade com afeto, incentivo e autoridade, sem sarcasmos, indiretas e humilhações. Talvez o meu maior desafio enfrentado tenha sido esse (e continue sendo): como ser autoridade sem ser autoritário, como ensinar a jovens cada vez mais interessados com o que se passa em seus celulares e outros aparelhos eletrônicos e menos motivados a refletir sobre o que leem e sobre o mundo que os rodeia. Vivemos em um tempo em que a competição, o individualismo e o hedonismo (dedicação máxima ao prazer como estilo de vida) constituem os pilares sobre os quais se assentam nossas vidas cotidianas, dentro e fora das escolas. Me entristeço e me aborreço ao ver colegas de trabalho e ex-alunos que se tornaram professores não se preocuparem em rever seus próprios conceitos sobre o que é educar alguém e do que é necessário para que isso se realize com robustez. Sem sólidos conteúdos das ciências de referência, sem teorias de aprendizagem (como aprende uma criança? Um jovem? Um idoso?) e, muito menos, sem metodologias de ensino-aprendizagem planejadas (pois Educação não se faz com improviso), como é possível realizar um trabalho pedagógico que faça realmente a diferença? Eu, de minha parte, continuarei perseguindo o ideal de professor que vejo como aquele que pode/ deve transformar vidas, inclusive a sua própria, sem pieguices, romantismos ou ingenuidades! Alguém disposto a me acompanhar nesta linda (e, por vezes, tortuosa) jornada do (auto) conhecimento?
Giovani José da Silva
Eleições 2026
Candidato a deputado estadual pelo PL participou de encontros nesta quarta-feira; ele apresentou propostas voltadas à geração de emprego e renda, investimentos e ampliação das oportunidades para a população da região
Eleições 2026
Candidata a deputada federal pelo PSDB destacou demandas de Bela Vista; saúde, educação, infraestrutura e desenvolvimento estão entre as prioridades
Voltar ao topo