Giovani José da Silva
Publicado em 02/03/2020 às 01:35
Atualizado em 10/09/2026 às 12:06
Hoje, 1.º de março de 2020, celebramos os 150 anos do fim da chamada Guerra do Paraguai (1864-1870) e, por essa razão, decidi escrever sobre aquele que foi o maior conflito armado internacional ocorrido na América do Sul no século XIX. A guerra foi travada entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (composta por Brasil, Argentina e Uruguai), estendendo-se de dezembro de 1864 a março de 1870. É também chamada Guerra da Tríplice Aliança (Guerra de la Triple Alianza), especialmente na Argentina e no Uruguai, e de Guerra Grande, no Paraguai. Há uma vasta literatura a respeito do assunto, produzida por historiadores e outros estudiosos, mas a maioria das obras, mesmo as mais clássicas, oblitera a participação indígena no conflito! Mato Grosso do Sul, o antigo Sul de Mato Grosso, foi palco de diversas batalhas e muitos grupos nativos – tais como Terena, Kinikinau, Guató e Kadiwéu – tiveram participações decisivas, seja fornecendo víveres/ alimentação, seja colaborando com armas, homens e animais (sobretudo cavalos). Há, pois, outras visões a serem recuperadas sobre a Guerra do Paraguai, a partir de fragmentos de memórias sociais construídas ao longo do tempo, uma vez que, após o terrível conflito platino, as terras (hoje) sul-mato-grossenses, aparentemente “vazias”/ “desocupadas”, foram sendo tomadas – muitas vezes sob o signo de intensa violência – por fazendeiros e posseiros não indígenas. A memória social dos Kadiwéu sobre a Guerra, por exemplo, revela como guerras e alianças são pensadas por esses e outros indígenas. Os Kadiwéu habitam atualmente a Reserva Indígena Kadiwéu, no município sul-mato-grossense de Porto Murtinho, em uma área com mais de meio milhão de hectares. Contam os índios mais velhos que a Reserva, a maior do Centro-sul brasileiro, foi conquistada graças à tenaz participação do grupo na Guerra do Paraguai, por meio de uma doação feita pelo Imperador Pedro II. A memória do conflito platino, que para muitos Kadiwéu nunca terminou, ainda hoje é celebrada de diversas formas, inclusive por meio de um ritual denominado Festa do Navio (etoGo), um grande “teatro” ao ar livre, em que se representam os movimentos da tripulação de um navio de guerra tomado aos paraguaios pelos Kadiwéu. Os indígenas, das crianças menores aos mais “antigos” contam que seus ancestrais tinham o “corpo fechado” e que nenhum Kadiwéu tombou em combate! Além disso, o rio Paraguai tornou-se um “mar de sangue” paraguaio, graças à destreza com que os “guerreiros” manejavam as armas. Ainda que a sociedade Kadiwéu tenha sofrido inúmeras mudanças ao longo do tempo por causa do contato, valores ligados à guerra conformam os limites da identidade étnica de um grupo que deseja continuar sendo destacado como “cavaleiro” e “guerreiro”, além de “artista”. Trabalhar com a memória social de jovens e anciãos Kadiwéu, para mim, é lidar com um tempo que se esgota lentamente e que se transforma, em determinado momento, somente em “tempos de antigamente” ou “tempos dos antigos”. Os desejos, os sonhos e as esperanças transmutam-se, assim, em recordações/ reminiscências. Isso tudo leva a uma característica básica do passado reconstituído pela memória: trata-se sempre de uma reconstrução, por mais detalhes que contenha, feita no presente. A memória Kadiwéu cria/ criou um corpo de conhecimentos próprios e exclusivos sobre a Guerra do Paraguai, constitutivos das identidades cultural e étnica do grupo. Referir-se, portanto, à construção de identidade a partir da relação com o espaço, através do tempo, é falar de representações e de adoção de atributos específicos aos Kadiwéu, em oposição a outras sociedades indígenas e à sociedade não indígena. Tudo isso é o resultado de uma situação de expansão da sociedade nacional sobre as áreas originais e sucessivamente ocupadas pelos indígenas. Muitos Kadiwéu, inclusive, acreditam até os dias de hoje que a Guerra do Paraguai jamais tenha terminado e que devem estar prontos para serem chamados a qualquer momento, a fim de lutarem por suas terras e suas vidas. De acordo com indígenas mais jovens, contudo, as lutas dos tempos de agora se fazem nos tribunais e em outros espaços, tais como escolas e universidades, e as armas de que necessitam são o papel, a caneta, o computador. As lutas do tempo presente, portanto, podem não ser mais as lutas dos tempos de antigamente, mas, com certeza, reeditam a guerra para uma sociedade de guerreiros, os “índios cavaleiros” como preferem ser chamados. A Guerra do Paraguai é, portanto, uma “história que aconteceu mesmo” digna de ser chamada de “história de admirar”...
Giovani José da Silva
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