Novidades não o atiçavam....observador, espreitava... esperava, cuidava....
A inquietude infantil não dava conta de compreender seu jeitão parcimonioso.
Suas tiradas pantaneiras comparativas explicavam tudo detalhadamente. Didático, lúdico, sagaz e dono de habilidosas palavras,cravou,de maneira poética,a linha da doce rudeza com que hoje bordo a vida em formas literárias.
A vassoura de guanxuma deixava ranhuras no límpido terreiro, como estradinhas para os ofícios diários das formigas a catar as sobras das folhinhas....a vassoura de guanxuma, "estacionada", no canto do ranchinho inspirava o mais alto voo de uma bruxinha arteira que,do alto,trapaceava morcegos e arrancava pedaços de suas asinhas para sua poção mágica no prateado caldeirão.
Varrer requer habilidades inimagináveis, delimitação do espaço, praticidade, posicionamento corporal adequado, agilidade, coordenação, empunhadura, campo de visão, concentração e muito mais....
Varrer é harmonizar-se com o rasteiro, cuidar do próprio terreiro, fincar os zóio no chão ou voar, deliciosamente, no cabo de uma vassoura com todas as liberdades e possibilidades da imaginação, voo mais fácil que do avião.
Cabos de vassouras de guanxumas são fortes, grossos, roliços, perfeito para aviação.
Montinho de cacarecos varridos deixados pelo chão, apareceu o Oswaldão e logo deu aquele sermão:
-Quá!!! E esse amontoado de entulho estorvando aqui?
-Parece merda de cuíudo! Junta logo isso porra!!
Nas cheias pantaneiras a "picarpe" (pick up willys) 4X4 1972, atolava ferozmente e zingrava atravessando o Pantanal. Para facilitar a travessia Oswaldão ordenava a todos:
-Apeia, apeia, apeia, logo, porra, sem embromação!!!
Após horas de peleia com a tração, água e barro, reordenava:
-Embarca, embarca, embarca, vamos seguir viagem!!!
Tinha frango frito mergulhado na farinha, de matula, na maior lata, a lata do arroz, do jogo de latas de mantimentos que enfeitavam as prateleiras, era tão ariado e lustroso que, segundo Oswaldão, alumínio bonito era aquele que dava pra fazer a barba e muié tirar os pelos da sobrancelha nele.
As sobras das cinzas do fogão à lenha ajudavam na lustração.
A chegada a fazenda sempre era a noite, hora de tomar banho com o clarão do luar e tirar o barro, esfregando um pé no outro, calçar o chinelinho gasto e escolher, à meia luz, de lamparina, a "muda" de roupa com o inesquecível cheirinho de lar.
Fogão à lenha aceso, brasas em tição, lá estava ele, o caldeirão prateado a ferver o leite para o quentinho mate doce, feito da castanha da bocaiuva catadas no mangueiro, triturados na máquina manual de moer carne, acrescido de leite com açucar queimado, perfeito!!!!
Bruxinha, vaquinha para embarcar e desembarcar, "estorvei", mijei no colchão de capim, banhei-me no barde com sabão de soda, enganchei as trancinhas no arame farpado, chorei no atoleiro, matuliei frango frito com farinha, engoli lambari no açude e, hoje, com intensidades e amiúde me fiz escritora para adoçar a minha vida e a de todos leitores que me contemplam com tanto carinho e atenção.