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Raquel Anderson

Véspera da cidade!

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Respeitando a mansidão do rio, o barco ancorou. Maria Rute deu um nó na ponta da saia para não encharcar a roupa de domingo, jogou a bota de cano curto no barranco e subiu, caminhando até a grama com a lata d'água, esfregou um pé sobre o outro, secou-os ao vento e calçou suas botas surradas.
Nenhum peixe trouxe, apenas um cardume de pensamentos formou-se com o galhos beijando a água, com a lambida do remo, como se uma língua fosse, invadindo outra boca, mansamente... com as réstias do sol trançando os feixes de luz na várzea... com o vento erguendo a saia, lubrificando pensamentos e desejos.
Resoluta, desencilhou seu cavalo que suava parado, à sua espera, no pé de pau. Amarrou a traia de arreio no tronco e montou pelo lado esquerdo, condicionada pela tradição mantida há séculos, cavalgando com a mesma necessidade libertária do animal, foi levada por ele até o quintal, apeou vagarosamente para expessar gratidão, bagunçou-lhe a crina e o deixou partir, pastar.
Com as botas encostadas na soleira da porta, entrou em casa de mansinho, estranhou a intensidade das labaredas de fogo expulsando a tampa da chaleira de ferro, como se o fogão à lenha a avisasse... entrou no quarto, pé ante pé e deparou-se com o seu homem dormindo pesado. Habituada a quietude e solidão, por um instante viu-se confusa entre felicidade e frustração, movida pela costumeira espera feminina, carregada na roupa, no barco, nas botas, no cavalo e nos poros...subitamente, veio a necessidade de um ritual performático para receber o macho que vinha, sempre, a tardinha, mudando a habitualidade da espera...
As imprevisibilidades estavam ao encargo da natureza, melhor era fazer de conta que era noite, acender a lamparina, meter-se acima do tempo e dar vasão às práticas do pensamento, adquiridas naquela manhã, no remanso do rio.
É preciso celebrar a sexualidade que antecipa  o 15 de agosto!
Aquidauanenses entenderão...
Maria Rute em elaboração...
Raquel Anderson

Foto by De Lourdes Medeiros Bruno

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