Maria Rute aproveitou a terra fofa, presenteada pela chuva, e foi revolvê-la, assistiu a fecundação cruzada das minhocas, pensou nos peixes, se eles fossem seletivos e preconceituosos, como são os humanos, não iscariam anzóis. A calmaria da fecundação pisciana, que precisa da mansidão das águas, fez Maria Rute sentir medo da saudade, "sem vontade de casar".
Todos podem ter terra, quando mexem com ela, debaixo das unhas, todos terão terra um dia, debaixo da terra, deixando-a ou não como herança, com ou sem esperança.
Na horizontal tudo é igual, pensou Maria Rute.
A fofura e o encharcamento da terra , aliados ao molejo das minhocas, faziam um ploft gostoso de pisar e sentir, causando curiosidade de como deve ser viver rojando o ventre no chão, em vão...
E quem tem o céu como limites, não olha para baixo, distraidamente, pode atolar-se, encravar o carro, a vida, no barro.
Acocorada ou "de croqui" como dizem os pantaneiros, Maria Rute movimentou-se na terra fofa, peperecando prá lá e pra cá, mexendo na terra, revolvendo húmus natural, resultante do gigantismo "da própria natureza", que beleza
A chuva virou garoa, a garoa virou brisa mansa, a brisa mansa, refrescante, deu lugar ao ensaio do sol e o chapéu de palha atolou-se em sua cabeça, novamente, inocentemente.
Como são lindos os pantaneiros com seus jeitos e ruídos...ali, agachada, Maria Rute ouviu o tilintar dos passos encharcados, sentiu cócegas nas costas com o passeio da folha do bacuri,suavemente, na sua pele, descendo e subindo... arrepio de fazer xixi
Preferiu ficar quietinha, atendendo a intuição e inteligência da mulher pantaneira, que sabe, com precisão, dominar...em qualquer lugar, qualquer situação
Com a coragem dos répteis, no momento certeiro, ela deu o bote, derrubou o pantaneiro pelo cangote e a terra fofa, revolvida, na lama, fez-se cama.
Porque é domingo.