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Rev. Vivaldo Melo

Eu, o Pasquim e Deus

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Na época do regime militar eu trabalhava no Rádio. Obviamente éramos orientados a evitar certos temas. Contudo, trabalhando em uma cidade do interior do Estado, aventurei-me a distribuir o Pasquim, entre os estudantes. Esse veículo de mídia era um dos poucos a conseguir expressar pontos de vista contrários ao sistema. Por conta desta aventura não apenas perdi meu emprego como não encontrava uma porta aberta em outros veículos de comunicação. É como se eu fosse um cidadão "non grato", conforme conceito usual na época para aqueles que representavam perigo para a sociedade. A solidão quase me leva ao desespero. Voltar prá casa, em Dourados, seria complicado, porque meus pais não entenderiam as razões do meu silencio. Certamente poderia ser taxado de subversivo, coisa que eu não era. E não queria dar-lhes esse desgosto. Não fosse o carinho de uns poucos amigos, entre deles o pastor Metodista já falecido, Rev. Octávio Falcão, que literalmente colocou em prática o que fazia parte do seu discurso, o amor cristão, eu teria feito bobagem.

Foi neste momento existencial negativo que Deus começou a trabalhar meu retorno à prática cristã. Eu já tivera, nos tempos de criança, uma experiência religiosa na Igreja do Evangelho Quadrangular. Depois, me decepcionara "com Deus", como alguns gostam de dizer. Não sabia, contudo, que Deus não desistira de mim, como não desiste nunca dos seus filhos. A benevolência do velho e carinhoso pastor seria apenas o primeiro estágio do caminho de volta, que incluiria outras situações dramáticas.

Vivemos dias em que não temos problemas com o evangelho pregado, pela via da Palavra. Todos os veículos de comunicação são usados para anunciar as boas novas do Reino. Naquele tempo, ter um espaço numa emissora de Rádio era coisa rara. E quando espaços eram cedidos, reservava-se os horários de pouca audiência. Essa postura devia-se ao fato que os "crentes", como eram chamados de forma pejorativa os evangélicos, não eram bem vistos por grande parte dos católicos. As homilias de João Paulo, defendendo no mínimo um respeito entre as vertentes cristãs diferentes, ainda não tinham penetrado com profundidade no coração de muitos. Hoje, diferentemente, há liberdade até prá se criticar de forma aberta e desrespeitosa aqueles que nos vêem como irmãos separados, e isto em horários nobres dos programas radiofônicos e televisivos. Uma coisa, porém, está cada vez mais ausente: o impacto do testemunho, ou seja, o cristianismo demonstrado por ações concretas de amor, respeito e solidariedade. O gesto de um pastor, num momento crítico de minha história, valeu mais do que mil palavras. E por causa dele eu pude dar mais atenção ao que ele falava. Comecei a ler menos o Pasquim. E fiz da Bíblia leitura obrigatória.

Pastor da Igreja Presbiteriana de Aquidauana
Especialista em Ciências da Religião pela Umesp
Email:
vivaldo_ms@hotmail.com
Site: www.ipbaq.com

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