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Rev. Vivaldo Melo

Juiz Odilon e a prática da Justiça

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O livro bíblico de Hebreus, cuja autoria nunca foi definida claramente, fala de "homens dos quais o mundo não era digno" no maravilhoso capítulo que trata da fé. Uma das qualidades ali realçáveis é "a prática da justiça" (Hb. 11,33). Lógico que o texto bíblico relaciona personagens que viveram em épocas distintas, pois não é tão fácil encontrar homens determinados "a não se conformar com esse mundo", conforme dizia o apóstolo Paulo ou "com as estruturas dominantes", conforme expressão usual no meio acadêmico. Cada geração tem alguns que se destacam na missão de fazer o bem, praticar a justiça, denunciar o mal e até dar a vida por esses ideais. Os personagens que se inserem nesses paradigmas singularizados pela Bíblia foram "apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos ao fio da espada; andaram peregrinos, foram afligidos, maltratados, etc" (Hb. 11, 37). Talvez pos isto muitos preferem simplesmente "se acomodar". Afinal, para que "incomodar?" Praticar a justiça e denunciar o mal é coisa de gente forte. No nordeste alguns diriam, "prá cabra macho".

Na atual conjuntura da história poucos homens se destacam na luta por justiça em dimensões que extrapolam o chamado dever comum. Talvez não tenhamos dificuldades de encontrar pessoas dispostas a fazer o bem de forma permanente e até com notoriedade. Essa é uma prática recomendada por todos os credos religiosos e que geralmente não envolve riscos. Basta ter boa vontade. Também as motivações para a prática da benevolência são várias. Há os que fazem o bem até por razões espúrias. Mas, lutar por justiça é muito mais difícil. No caso de fazer o bem as estruturas do poder se disponibilizam, até pelos dividendos que podem obter. Mas, manter a prática da justiça como norma permanente de ação, tem seus espinhos. Que o diga o juiz federal Odilon de Oliveira, um homem que vive cercado de uma guarda especial exatamente por ter a "prática da justiça" como missão maior de sua vida. Alguém pode inquirir: "os outros juizes não fazem o mesmo?" Espera-se, de qualquer magistrado, que pratique a justiça, com certeza. É possível, contudo, evitar determinadas iniciativas ou empreitadas. Qualquer pastor, por exemplo, pode simplesmente manter uma postura aparentemente cristã, na relação direta com o poder, orando pelas autoridades (o que é um dever) e jamais levantando a voz profética, contra as arbitrariedades deste poder, até porque alguns entendem que tem que ser assim (certas coisas não se misturam). Terão comportamento moral e ético bíblico exemplares e jamais serão reprovados pelos seus fiéis. Outros, porém, como Martin Luther King, podem ir além deste modelo, por entenderem que o silencio em relação a algumas coisas é tão cruel quanto o fazer outras.

Num momento em que a justiça é vista com o a única solução para muitos dos problemas que nos afligem, a luta do juiz Odilon nos faz crer que nem tudo está perdido. Aliás, como cristão acredito sempre que poderemos contar com dias melhores, se nos voltarmos mais para Deus. Parte desses problemas se deve ao fato que grande parte dos homens da pós-modernidade em condições de influenciar as gerações não tem colocado Deus em suas agendas de ações. E o Todo Poderoso, embora tenha poder suficiente para intervir em todas as estruturas de mortes que se estabelecem na sociedade humana, quer contar com o homem que ele próprio criou para construir um projeto de vida justo para todos. Se os seus profetas convencionais, profissionais do sagrado segundo os críticos da religião, falham neste ideal, Ele há de levantar outros, como o juiz Odilon, para que no futuro ninguém alegue que os que malfeitores não foram avisados, sejam eles quais forem.

O autor é pastor da Igreja Presbiteriana de Aquidauana
Especialista em Ciências da Religião pela UMESP

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