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Rev. Vivaldo Melo

Saudades dos crentes... (1ª Parte)

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O título acima foi dado por Dom Robinson Cavalcanti, bispo da Diocese Anglicana do Recife, pródigo escritor e um dos pensadores mais lúcidos da Igreja evangélica brasileira, a um artigo no qual refere-se aos bons tempos no passado, quando a Igreja tinha um peso significativo na sociedade, mesmo que apequenada em termos de membros. Confesso que tenho o mesmo sentimento, quando constato, como ele, que estamos voltando à cosmovisão opressiva da Idade Média com as batalhas espirituais e a teologia da prosperidade. As experiências tomando o lugar da fé na Providencia e a importação de pacotes estrangeiros são exemplos da lamentável situação em que chegamos, levando o escritor anglicano a observar, com precisão, que estamos perdendo o respeito e a credibilidade. A prova está no fato de que cada vez mais nos deslocamos para as páginas policiais. Os escândalos são comuns e aceitos com naturalidade. E para uma série de aberrações há sempre uma construção teológica, para justificá-las.

Diante deste quadro a revista Ultimato editou uma matéria que se vale de uma interrogação, como ponto de partida: "O que está acontecendo com a Igreja gloriosa?". Na perspectiva divina a Igreja deve ser "sem mancha nem ruga ou coisa semelhante" (Ef. 5,27). No entanto, nos arraiais evangélicos, como nos tempos de Judas, irmão de Tiago, a graça tem sido transformada em libertinagem. Lá muitos líderes da Igreja achavam que podiam andar como quisessem, "sem medo da ira divina" (Jd 4, BV). E o que dizer do culto, cada vez mais transformado em show? Diante disto o pastor de um remanescente fiel, que graças a Deus ainda existe, opina que "o papel da música religiosa hoje em dia não implica, obrigatoriamente, em uma elevação da qualidade dos adoradores e do culto". As palavras culto e show não combinam com aquilo que a Bíblia diz sobre o ato de adorar, afinal a Igreja existe não para oferecer entretenimento, melhorar a auto-estima ou facilitar amizades, mas para adorar a Deus. Philip Yancey, um dos mais respeitados escritores de nossos dias observa que "se falharmos nisso, a Igreja fracassa". É de se lamentar, então, que em muitos contextos esteja crescendo a idéia de um "culto ligth" (leve, ligeiro, jocoso etc).

Outra distorção lamentável no seio da Igreja tem sido a transformação do dízimo em dividendos. Um dos expoentes mais admirados desta visão é o pastor Silas Malafaia. "Hoje é comum encontrarmos empresários cristãos e recém convertidos dando o dízimo com todo afoito, na esperança de serem bem sucedidos nos negócios, de preferência, imediatamente", salienta texto da revista Ultimato. Lembra que a malfadada teologia da prosperidade criou essa mentalidade mercantilista do dízimo. Poucos gostam de lembrar que no ensino de Jesus Cristo o maior valor da contribuição é espiritual e não monetário. Por esta razão ele valorizou mais as duas pequeninas moedas, dadas por uma mulher pobre, do que as "grandes quantias" dos ricos (Mc 12, 41-44).

E o que dizer do enquadramento dos milagres nas leis do mercado? Não há nada de errado na busca da face de Deus nos momentos difíceis. A Bíblia nos orienta a clamarmos pelo Senhor com mais intensidade em situações especiais, como desemprego, apertos financeiros, crises conjugais, solidão, doenças e outros infortúnios. Lamentável é transformar isto em marketing. Assim, muitos que em tese deveriam ser pastores de ovelhas, tem se transformado em empresários, se utilizando dos milagres de forma sensacionalista. Quando maior o público, melhor. A propósito o texto em alusão lembra que "os milagres são gratuitos, como os prêmios de Seleções do Reader's Digest, que já estão a caminho, mas só chegam se o interessado assinar a revista. Em seu livro "Jesus Mestre de Nazaré", Aleksandr Mien, da Igreja Russa, lembra que Jesus procurava sempre esconder das multidões os prodígios que operava. "Não digais a ninguém" era só o que repetia a todos os que curava. Portanto, era evidente que Jesus "não queria transformar os milagres em mera arma que forçasse os inimigos a crerem nele". Como não lembrar das palavras que dirigiu a Tomé, pouco antes de sua partida: "mais bem aventurados são os que não vêem e crêem!?".

Pastor da Igreja Presbiteriana
Vivaldo-2008@hotmail.com / www.ipbaq.com

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