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Dia dos Povos Indígenas

Escritora, professor e designer indígenas falam sobre arte e resistência

Estado possui mais de 80 mil indígenas e artistas se pronunciam sobre sua importância no Dia dos Povos Indígenas

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Segundo dados da Sesai (Secretaria de Saúde Indígena de Mato Grosso do Sul) o Estado possui 80.459 indígenas, espalhados por 29 municípios. Um número expressivo deste povo que ajudou a construir a cultura local.

Hoje, 19 de abril, é celebrado o Dia dos Povos Indígenas e três artistas falam sobre como é propagar a arte e resistência indígena em Mato Grosso do Sul. São eles: Gleicyelli Nonato, escritora Guató; Ismael Morel, conhecido como Ismael Kaiowá, professor de dança; e Beni Kadiwéu Examelexe, artesã e designer.

Escritora

Ainda criança, Gleicyelli Nonato escrevia poesias e pequenos textos para o grupo de teatro da escola, até participar de concursos de redação em sua cidade. A escritora é de Coxim MS, originária do Povo Guató do Pantanal.

A família de Gleicyelli, como muitas outras famílias indígenas, subiu o rio Taquari em busca de emprego em fazendas do Pantanal para se sustentar.

“Nós Guatós não nos organizávamos em aldeias, éramos nômades e vivíamos em famílias nucleares, por isso fomos considerados extintos. Hoje temos que ter aldeia. Nós não tínhamos Cacique e Pajé, a palavra era discutida em família, e a mulher mais velha da família discutia com a mulher mais velha de outra família para chegar num consenso. Hoje nós temos cacique e Pajé. O povo Guató teve que mudar a sua estrutura sociopolítica para não morrer”, explica a escritora.

Gleicyelli é de família pantaneira, indígenas que tiveram que aprender a lidar com o gado para sustentar a família. “Minha mãe foi a primeira a ter ensino superior na família e por isso que hoje eu e meus irmãos temos estudo. Sou acadêmica de Letras na UFMS Campus de Coxim”.

Ela escreve em português, pois a língua guató foi extinta, mas usa algumas palavras desta língua do seu povo em seus textos. Tem dois livros publicados: “Índia do rio” poesias de 2013 e “Vila Pequena”, causos, contos e lorotas, de 2017.

A artista das palavras faz de sua escrita, palestras, conversas e contrações de histórias, uma maneira de semear a cultura Guató, e não permitir que seja apagada novamente.

“Ser escritora indígena é uma responsabilidade muito grande. Porque representatividade importa e essa representatividade cultural precisa vir com a certeza de que está no caminho certo”, afirma.

“Tudo que se refere a ser indígena já vem com o peso dos moldes sociais que fazem de nós: mulher selvagem (sexualizada), romantizada, ou incapacitada, mas nunca como intelectual. Ser escritora indígena é ter que passar o tempo todo se afirmando como intelectual, e capaz de escrever o que quiser sem os pré-conceitos estabelecidos à nossa imagem. Mas eu, particularmente, me instigo a conquistas maiores justamente porque sou Guató, sou guerreira, eu sei que posso chegar lá e levar comigo minha ancestralidade”, completa.

Professor de educação física e dança

Outro artista indígena é Ismael Morel, da etnia Guarani Kaiowá. É amante da arte, da cultura e principalmente da cultura indígena, em especial a do seu povo Guarani-Kaiowá. Ismael conta que montou um grupo de dança na escola onde dá aulas porque se revoltou com a aculturação que seu povo vem sofrendo.

“Sofremos aculturação violenta da sociedade durante todo esse tempo e fomos deixando a tradição cultural guarani-kaiowá meio de lado, e isso me incomodava muito, percebia a juventude indígena meio perdida, sem rumo, sem identidade”, reflete.

“Fomos envolvidos por outras culturas, outras crenças, outras religiões, seguimos a vida tentando sempre acompanhar a outra sociedade sem valorizar a nossa. Revoltei-me contra tudo isso na minha adolescência, e comecei a exercer a minha liderança propondo dançar, cantar, praticar esporte e estudar a nossa cultura”, acrescenta.

Ismael foi embora da sua aldeia Guapoy (município de Amambai) para estudar, cursou Educacao Física, se graduou em 2004, retornou à aldeia e formou o primeiro grupo de dança na escola onde trabalha, a Escola Municipal Polo Indígena Mbo’e roy Guarani-Kaiowá.

“Formei o primeiro grupo de dança indígena, foi meio que uma bomba na aldeia, todos surpresos, virei notícia na aldeia e na cidade”, declara.

A alegria do seu povo é notada nas danças, na contagiante entonação dos cânticos, na preparação das bebidas tradicionais, na preparação das festas.

“Para o nosso povo tudo é sagrado, e mesmo com a interferências de crenças alheias, carregamos o DNA da dança, alegre quando há alegria, melódico e triste quando há tristeza. Em rodas para dançar o Guachire (dança da alegria, com versos simples, estilo repente) seja atrás dos Nanderu, posicionados ao lado das Nandesy nos cantos sagrados para batismos de crianças, da roça, nos rituais de cura”.

O professor de Educação Física diz que demorou para entender qual era sua função na sua aldeia, pois ao mesmo tempo em que sente ser de lá, sente também que não.

“Formei-me em Educação Física por acaso, meu sonho era ser médico, mas descobri na disciplina de Educação Física uma ferramenta para revitalizar e fortalecer a prática cultural do meu povo, seja no esporte ou na dança”, afirma hoje, convicto.

Designer e artesã

Convicção semelhante possui a designer e artesã Beni Kadiwéu Examelexe, que começou na arte desde muito pequena, com incentivo do seu avô: “Meu vô sempre vinha pra cidade, ficava entre cidade e aldeia, então ele ficava vendo essas coisas mais contemporâneas aqui fora. Eu nunca fui de fazer a cerâmica Kadiwéu, mas eu fiz outras coisas, como por exemplo tranças, fibras de caraguatá, tecelagem, mais essas coisas de algodão”, conta.

Para ela, o indígena em si tem a arte, vem com esse dom. “Mas é preciso um incentivo por parte da família pra ele conseguir produzir essas coisas. Tem a arte tradicional e a arte contemporânea, eu sempre tive as duas coisas e sempre acompanhando meus avós. Tive muito contato com a natureza, eles sempre me mostraram que tem uma árvore que solta uma tinta que produz a resina, que é a árvore do palo santo. Da natureza posso retirar o suficiente para transformar em arte”.

Beni diz que sua primeira ideia de representar seu povo foi para tentar passar para a sociedade em geral o que é ser Kadiwéu, quem foram os Kadiwéu, quem são. “Eu estudei na cidade desde o quinto ano do Ensino Fundamental, então eu via muito essa falta de conhecimento até mesmo dos professores, mas agora isso está mudando, a gente já começa a ver a diferença”, acredita.

“Nunca foi contado o que realmente é o índio, estou falando especificamente do povo Kadiwéu. Eu moro numa cidade que fica próxima à minha aldeia, que é um município pequeno, as pessoas aqui não conhecem a realidade e isso não é diferente no Estado inteiro. Nem todo indígena usa o cocar na cabeça, tem o significado usar o cocar, não é qualquer pessoa que pode usar, tem que ser um líder, um pajé”, complementa.

Ela ainda diz que “no mundo acreditam que nós somos todos iguais na cultura, mas existem as especificidades de cada povo, então eu quis mesmo levar junto comigo, uma verdadeira história do povo e fazer a defesa do povo Kadiwéu contra a exploração. No artesanato tem muito isso, tem o atravessador. O artesanato lá fora é muito valioso”, destaca.

A designer sempre pensou assim. “Desde pequena sempre tive esse pensamento: eu vou estudar e fazer alguma coisa para defender o povo. A gente conseguiu ter um avanço aí de 50%. As coisas estão mudando. Esses dias eu fui à casa de uma menina Kadiwéu e ela mostrou o livro. Então no livro didático de séries iniciais já está com a arte Kadiwéu, fiquei muito feliz de ver isso, de ver essa valorização e reconhecimento da arte Kadiwéu. São muitos indígenas no Brasil que estão com essa missão, não sou só eu. Cada indígena defendendo seu povo”.

Beni se sente reconhecida hoje pela sua arte, pelo fato de as pessoas a consultarem antes de “fazer as coisas”. “Hoje em dia, como artista indígena, eu me sinto reconhecida porque muitas pessoas me consultam antes, às vezes mandam mensagens: ‘pode fazer isso, não vai ser uma ofensa?’ Isso é ser artista indígena, você ver que você conseguiu implantar na cabeça das pessoas o que pode e o que não pode, então as pessoas acabam consultando, essa palavra consultar é muito importante para nós, a partir daí você vê que recebeu esse reconhecimento. E ter um nível superior ajuda muito. Vale muito a pena, fui bolsista pela UCDB para o curso de Design, tive apoio do Programa Rede de Saberes”.

“E muitos convites, que têm pró-labore, que não vai ser exploração, que você vai levar para escola uma aula, fazendo um planejamento, os órgãos públicos, escolas particulares, estão se abrindo para isso, tentando corrigir um erro. Parte de nós não aceitarmos migalhas para fazer certos trabalhos artísticos, aí você é valorizado: você tem que se valorizar primeiro para ser valorizado. Eu procuro incentivar também as pessoas que estão começando agora, não vender o trabalho a preço de banana, e tentar levar outras pessoas, quando dá sempre abre espaço para outras pessoas terem participação junto comigo, da aldeia, eu devo a esse povo isso. Ser artista indígena é descontruir um modelo antigo de modos, implantados pela sociedade. É lutar contra exploração, é a defesa de um povo, e empoderamento! É lutar pela salva guarda dos povos Indígenas costumes, tradições e modos. É quebrar tabus!”, finaliza.

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