Nossa gente
Em 1982, ela fez parte do primeiro pelotão feminino que abriu caminho na corporação
Uma frase que ultimamente se ouve com frequência ou mesmo se lê, diz que: “lugar de mulher é onde ela quiser”. Se em pleno início do século 21 essa afirmação é feita e muitas vezes desrespeitada, imagina em plena década de 1982, quando o lugar de mulher, em alguns casos, ainda era onde lhe permitissem. Com as instituições militares não foi diferente, mulheres realizando tarefas consideradas de cunho extremamente masculino, era inconcebível e parecia algo impossível para os membros da sociedade da época.
Como forma de mudança, no ano de 1982, a Polícia Militar deu início a uma abertura e mudando esse conceito chamou a atenção e inovou radicalmente ao realizar um concurso público para o quadro feminino de praças da corporação. Muitas mulheres que carregavam um espírito transformador, decidiram se inscrever, mesmo que contrariando familiares ou sendo criticadas por pessoas que carregavam uma opinião negativa por essa oportunidade.
Ex- PM Lécia Mara Reis de Oliveira - Foto: ArquivoEntre as centenas de candidatas de todo o Estado de Mato Grosso do Sul estava Lécia Mara Reis de Oliveira, hoje com 65 anos (na época estava com 24). Uma aquidauanense que, ao contrário de algumas candidatas, não teve dificuldade ao decidir se candidatar a uma das vagas. Filha de militar, a soldado Mara, como ficou seu nome de guerra, foi aprovada nos exames seguintes e fez parte da corporação da Polícia Militar, atuando na capital Campo Grande por sete anos, quando pediu o desligamento. Ela fez parte da turma pioneira do corpo feminino na instituição. Nessa reportagem iremos chamá-la de Lécia.
Lécia, que sente muito orgulho por tudo que fez e experimentou na Polícia Militar, revela que não sofreu preconceito, apesar de tudo ser muito novo naquela época. Essa aquidauanense acredita que foi apenas a quebra de um tabu numa instituição que até então só aceitava homens. Diante da curiosidade de muitos, Lécia revela que não sofreu preconceito e atribui isso ao fato delas, mulheres, que estavam chegando na corporação, terem surpreendido os homens, mostrando sua importância, através da realização de um trabalho sério, comprometido e que elas respeitavam bastante.
“Para mim foi uma honra ser a pioneira na minha terra natal e ainda mais dessa instituição tão importante que é a Polícia Militar. Tenho muito orgulho de quebrar fronteiras e abrir espaço para outras mulheres seguirem essa carreira. Apesar de ser mulher, mesmo na época éramos treinadas a usar os meios necessários para conter os infratores e trazer a paz social. Inclusive, andávamos armadas com revólver e cassetete”, conta Lécia, muito orgulhosa.
Lécia, que sente muito orgulho por tudo que fez e experimentou na Polícia Militar - Foto: ArquivoA preparação para uma atividade num ritmo que derrubou o conceito “mulher é sexo frágil” e a conquista com perseverança
Lécia, fez parte da homenagem que a ASPRA-MS (Associação de Praças da Polícia Militar e Bombeiros Militares do Mato Grosso do Sul), realizou em agradecimento as pioneiras da corporação que entraram para a PM-MS na turma de 1982, abrindo as portas para que outras mulheres pudessem seguir o mesmo caminho, exemplo e carreira, provando assim, que talento não tem gênero, é algo apenas para pessoas fortes.
Lécia recebendo a Homenagem em Campo Grande - Foto: DivulgaçãoA ex-PM revela que apesar de serem mulheres, o treino e toda a preparação era semelhante à dos homens. Ela lembra desse tempo como algo que marcou sua passagem pela Polícia Militar.
“Acredito que o curso de formação de soldados, pois ralamos bastante para formar. Destaco, também, as primeiras rondas que realizamos com equipe formada só por mulheres nas ruas da capital. Na época tudo era questão de costume. Falo isso, pois era novidade tanto para Polícia Militar, quanto para os homens policiais. Logo, precisávamos entender e ter paciência para conquistar o nosso espaço também, e isso não viria do dia para noite”.
Lembra a ex-policial, que fala orgulhosa de ter sido a pioneira na cidade natal, a abrir esse caminho para outras mulheres. “Para mim foi uma honra ser a pioneira na minha terra natal e ainda mais dessa instituição tão importante que é a Polícia Militar. Tenho muito orgulho de quebrar fronteiras e abrir espaço para outras mulheres seguirem essa carreira".
Lécia e seus dois filhos militares - Foto: ArquivoSeguindo a máxima de que filho de peixe, peixinho é, Lécia decidiu entrar para a vida militar ao admirar dentro de casa, por anos, a carreira que o pai já trilhava. Esse exemplo não parou quando a ex-agente ingressou na Polícia Militar. Ela se casou com um também policial militar e assim, fascinados pela história do avô, da própria mãe e do pai, os filhos de Lécia, não fugiram às raízes e, hoje, integram o quadro do Bombeiro Militar no Mato Grosso do Sul.
Mas não apenas aos filhos, essa aquidauanense pioneira na PM-MS, que acreditou numa possibilidade, quando tudo parecia impossível, e venceu, hoje, ela procura espalhar incentivo para quem pensa ser difícil vencer barreiras.
“Aconselho que deve acreditar e batalhar pelos sonhos, que ninguém pode falar que não é você não capaz. O nosso maior rival, somos nós mesmos; temos que ter disciplina e perseverança para alcançar os nossos objetivos. Tudo é possível, basta querer. Acredito que tudo tem o seu tempo e sua contribuição naquele momento. Aprendi muito servindo a Polícia Militar como profissional, e principalmente como pessoa. Com certeza, só o fato de participar da turma pioneira feminina da Polícia Militar, é motivo de muito orgulho para mim e para minha família”, conclui cheia de satisfação a ex-soldado da PM, Mara.
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