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Memórias Pantaneiras

Quem luta vence

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Na década de 1940, na cidade de Penápolis, SP, um rapaz de 25 anos, pequena estatura, franzino, nominado Euclides Joaquim de Oliveira, embarcou em um trem de passageiro e chegou em Aquidauana a fim de trabalhar na construção das “turmas” (pequenas estações entre as cidades principais – tronco Bauru-Corumbá) na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Após o encerramento desse trabalho foi exercer a função de pedreiro na finalização da construção do Hospital Adolfo Lutz, que pertencia à época à ferrovia.

A vida do jovem Euclides mudou definitivamente quando, um certo dia, embarcou na Estação de Taunay e avistou Elza Ravaglia, neta de imigrantes italianos, cuja descendência fazia dela uma jovem de alta estatura, forte, decidida e com lindos olhos azuis que ficavam verdes com a luz do sol. As trocas de olhares e conversas levou-os ao namoro e ao casamento. Após a união, decidiram fixar residência em Taunay, local onde nasceu o primeiro filho, Marcos, mas que faleceu três dias após o nascido. Essa perda marcou profundamente a Elza, que até o final da vida levava flores e as colocava no túmulo do filho, em Taunay.

Em 1955, decidiram fundar a Fábrica de Ladrilhos e Granitos Paulista, especializada na produção de ladrilhos hidráulicos, pias, caixas d’água e construção de túmulos tendo como material principal o granito. A fábrica expandiu no decorrer do tempo, começou com uma prensa de fabricação de ladrilhos, com o sucesso do empreendimento, surgiu a necessidade da aquisição de mais duas. O número de funcionários chegou a 18 profissionais, que recebiam treinamento para desenvolver as atividades. Além de Aquidauana, a fábrica atendia as cidades de Nioaque, Porto Murtinho e Bonito, bem como várias fazendas na região do Pantanal.

O negócio ia bem, a família aumentando com a chegada dos filhos Mário, Matilde, Neide, Nelson e Maria Elisa, que foram crescendo entre a labuta diária e as tradições de origem italiana: família grande ao redor da mesa, comida farta, alegria, conversa alta e repleta de gestos. Daí chega o 7º filho, Saturnino Bogado, o mano Satu, que veio, pelos caminhos traçados por Deus, de uma fazenda pantaneira para servir o Exército, desde então permanece com a família, sendo considerado o irmão, o tio e o tio-avô… companheiro amoroso e atencioso.

Em maio de 1965, o patriarca Euclides foi assistir o final do Campeonato Municipal de Futebol, onde seu filho Mario jogava no seu time do coração, o Bairro Alto. Durante o jogo, sofreu um enfarte fulminante e faleceu aos 49 anos. A Elza ficou viúva aos 37 anos, com cinco filhos para acabar de criar e uma fábrica para administrar.

Assumiu a direção da fábrica tendo que comandar 18 funcionários, todos do sexo masculino, situação atípica à época; levou adiante com uma fibra admirável o legado que lhe coube, foi a primeira mulher de Aquidauana a tirar a Carteira B de motorista de caminhão. Dirigia seu Ford 350 verde carregado de ladrilhos, areia, tanque, o que fosse preciso. “Quem luta, vence” frase escrita no Ford 350 era a expressão da família, levando todos na mesma direção, valorizando o trabalho, os estudos, a construção de uma vida digna e honrada para todos. O trabalho duro e as perdas a fortaleceram sem deixar que endurecessem seu coração.

A Elza, a dona Elza da fábrica de ladrilhos, faleceu em 2007, foi quando os lindos olhos azuis que ficavam verdes com a luz do sol tornaram-se cinza, deixando um imenso legado para sua família e para quem teve a honra de conhecer essa VALENTE MULHER.

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