Policial
dothCom Consultoria Digital
Publicado em 22/10/2008 às 16:52
Atualizado em 10/09/2026 às 13:54
No segundo dia do cativeiro de Eloá Cristina Pimentel, 15, um irmão dela e o pai, Everaldo Pereira dos Santos, fizeram uma viagem secreta a São Paulo. Saíram do cenário pobre do Jardim Santo André, onde a menina era mantida sob a mira do revólver do ex-namorado, e rumaram para um elegante casarão no Jardim Paulista --a 36 km de distância.
Foram em busca de um advogado. Pai e filho acabavam de saber que, em Maceió, Alagoas, Pereira dos Santos, que havia aparecido na TV logo no início do drama, fora reconhecido como o acusado de matar o delegado Ricardo Lessa, em 1991. Um telefonema de Maceió avisou a família de Eloá.
Até o desfecho do seqüestro, na última sexta-feira, o ex-cabo da PM de Alagoas ainda se apresentava como Aldo Pimentel --ele adotou o sobrenome da mulher, Ana Cristina. "Sou inocente. Nunca matei ninguém. Nunca, nunca e nunca. Mas sou um arquivo vivo. Por isso quiseram e querem me liquidar", disse ele, tentando justificar a fuga do Nordeste, em 1993, assim que sua prisão preventiva foi decretada.
Chorando compulsivamente em vários momentos, Pereira dos Santos, que trabalhava como vigilante, ganhando R$ 1.500 por mês, lembrou que, duas semanas antes do seqüestro, foi avisado por conhecidos que Eloá havia apanhado de Lindemberg. "Fui falar com ele e ele negou. A gente se abraçou, ele chorou e eu também. Ele amava a minha filha", disse.
Para dificultar a localização do ex-PM, o advogado Ademar Gomes exigiu que a conversa com jornalistas fosse feita pelo telefone de seu escritório.
O pai de Eloá não diz quando se apresentará. "Estou desnorteado ainda." O advogado também não dá prazo para a apresentação de seu cliente. Diz que estudará o inquérito antes, que já mandou vir de Alagoas. Abaixo, trechos da entrevista:
"Eu era parte da segurança do dr. Ricardo Lessa, delegado da polícia e irmão do então governador Ronaldo Lessa. Fui requisitado, como cabo da PM, para fazer esse trabalho porque o dr. Ricardo tinha medo de a Polícia Civil assassiná-lo. Policiais civis tinham raiva dele porque um monte de crimes que a civil não apurava, o dr. Ricardo colocava a PM e a PM descobria os culpados."
"Um dia, tiraram a gente da segurança do dr. Ricardo [choro]. A cúpula da secretaria, os mafiosos, o [ex-]coronel [Manoel] Cavalcante [preso desde 1997] e alguns fazendeiros arquitetaram o crime."
"No quartel, fiquei sabendo que estavam criando o plano para matar o dr. Ricardo. Contrataram policiais de Pernambuco para fazer o serviço. Tenho os nomes de todos eles. Os PMs que fizeram a segurança do dr. Ricardo, eu inclusive, morreriam em seguida. Quando foi decretada minha prisão preventiva, eu estava marcado para morrer. Eu sabia demais. Infelizmente, o irmão do dr. Ricardo nunca quis falar comigo. Então, nunca soube a verdade. Foi aí que decidi abandonar o Estado, a minha terra natal."
"Sou inocente. Me acusaram de roubo de cargas, de matar um homem em um hospital. É mentira. É o costume deles. Para deixar você mais "podre", o acusam de tudo quanto é crime. Mas nunca houve uma testemunha que tenha dito que matei o dr. Ricardo. Nenhuma."
"O que sei é que eles querem apagar o "arquivo vivo", que sou eu. Porque trabalhei com uma pessoa que foi diretor da polícia da capital. E esses que mataram o dr. Ricardo nos tiraram da segurança dele exatamente para que o serviço dos pistoleiros ficasse mais fácil."
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