Investigação
Um dos ouvidos diz que “conhecia a família da Dra. Emanuelle há muito tempo, quando possuía uma fazenda vizinha a dela, no Pantanal”
Os depoimentos de três homens presos em Campo Grande suspeitos de aplicarem um golpe milionário em um aposentado do Rio de Janeiro, contradizem totalmente a tese da defesa da advogada Emanuelle Alves Ferreira da Silva, de que ela é inocente e foi enganada por documentos falsos. Ela está presa desde segunda-feira (30), também pela suspeita de participação no crime.
Os três foram presos depois que o gerente do banco onde tentavam transferir uma parte do dinheiro do golpe desconfiou dos documentos apresentados e chamou a polícia. Os depoimentos prestados na Polícia Civil no dia 4 de julho confrontam com a tese de defesa da advogada.
O advogado Wilson Tavares de Lima diz que ela é uma vitima de estelionatários, que a contrataram para entrar com um processo de cobrança contra um advogado aposentado do Rio de Janeiro, que teria comprado uma fazenda por quase R$ 7 milhões e não pagou.
Só que a polícia descobriu que a venda nunca aconteceu e que os documentos apresentados pelos suspeitos, tanto uma confissão de dívida, quanto as notas promissórias eram todas falsificadas. O grupo criou documentos pessoais e até a declaração de Imposto de Renda de João Nascimento dos Santos, o dono da fazenda. Mas ele nunca existiu de verdade.
Um dos presos, Ronei de Oliveira Pécora, afirma que “Emanuelle sabia plenamente da origem criminosa e falsa dos documentos [que deram origem a ação civil proposta por ela]”.
O suspeito diz ainda que “conhecia a família da Dra. Emanuelle há muito tempo, quando possuía uma fazenda vizinha a dela, no Pantanal”.
Conforme a polícia, foi Ronei que chamou José Geraldo Tadeu de Oliveira para participar do golpe. É ele quem assinou os documentos em nome de João Nascimento dos Santos, o falso vendedor criado pela quadrilha.
Para a polícia, José Geraldo disse que tudo foi feito no próprio escritório da advogada e que receberia R$ 100 mil pela falsificação.
José Geraldo, se passando pelo falso vendedor, teria de ir em um banco para transferir o dinheiro liberado pela Justiça, após o ganho de causa na ação movida pela advogada. Mas no depoimento ele disse que ficou com medo de ser descoberto. Então, a quadrilha contratou uma terceira pessoa para fazer o serviço.
O escolhido foi Delcinei de Souza Custódio. Ele contou a polícia que no dia 2 de julho recebeu uma ligação do juiz Aldo Ferreira da Silva Júnior, que é marido da advogada Emanuelle. Que o magistrado disse que se lembrou dele e que a esposa precisava de um procurador para uma situação que ela mesma iria explicar depois.
Quarenta minutos depois, Emanuelle ligou, e, de acordo com o depoimento do suspeito, combinou tudo. Ela ligou usando um aplicativo que não pode ser grampeado.
O suspeito disse ainda que conhece o juiz Aldo Ferreira da Silva Júnior porque ele tem cavalos em um haras em Campo Grande onde o seu cunhado trabalho.
Ainda de acordo com o depoimento, Delcinei disse que teria de ir com uma procuração até o banco e que “durante a conversa com Emmanuelle foi orientado a apagar do celular todas as chamadas telefônicas recebidas do juiz e também os registros de ligações e mensagens dela”. Pelo serviço ele receberia R$ 5 mil.
Os depoimentos dos três foram decisivos para que a Justiça determinasse a prisão preventiva de Emmanuelle.
Agora, o procurador-geral de Justiça em exercício, Humberto Brites, quer saber se o juiz Aldo Ferreira da Silva Júnior teve mesmo participação nos crimes. Por isso, ele enviou um requerimento ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJ-MS) pedindo a abertura de uma investigação.
No dia 23 de julho, o presidente do TJ-MS, Divoncir Maran, encaminhou o ofício a Corregedoria e pediu providências.
A reportagem enviou uma solicitação ao TJ-MS para saber se a Corregedoria abriu ou não algum procedimento para investigar a postura do juiz Aldo Ferreira da Silva Júnior, mas não houve retorno. A defesa do magistrado e da advogada Emanuelle Alves Ferreira da Silva alegou segredo de Justiça para não comentar o caso, mas reafirmou que ambos são inocentes. O advogado Wilson Tavares de Lima também disse que vai pedir o fim do sigilo do processo para esclarecer a verdade.
Relembre o caso
Usando vários documentos falsificados, como notas promissórias e um termo de confissão de dívida, a quadrilha entrou com uma ação de execução, alegando não ter recebido quase R$ 7 milhões, pela venda de uma fazenda e ganharam a causa. A conta da vítima foi bloqueada pela Justiça e o dinheiro foi repassado ao grupo.
Foi aí que a vítima descobriu o golpe. A advogada do aposentado, Mônica Possas, questiona o trabalho realizado pela Justiça e alega que alertou sobre os documentos falsos.
Como a defesa da vítima alega que a Justiça simplesmente ignorou a solicitação de análise de assinaturas, ela entrou com um pedido de providências no Conselho Nacional de Justiça, contra a segunda Vara Cível de Campo Grande e registrou também boletim de ocorrência.
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