dothCom Consultoria Digital
Publicado em 26/08/2009 às 10:21
Atualizado em 10/09/2026 às 13:55
Quanto mais você penetra nos labirintos da medicina, mais tranquilas se tornam as salas de espera.
Sou paciente de câncer há um ano. Notei que, quanto mais perto chegamos da mortalidade crua, mais somos reduzidos a cochichos e silêncio. Nas salas de espera da oncologia, somos transformados - passamos de clientes, meros consumidores, a suplicantes.
A maioria de nós conhece o friso espantoso de uma sala de espera típica, seja o desorganizado laboratório de análises clínicas lugar sem pessoal suficiente ou o esconderijo administrado por seu médico. Há o barulho irritante da televisão (devo admitir que simplesmente não entendo Rachael Ray e todas as suas fãs que batem palma e vibram com receitas), o cemitério de revistas velhas e gastas (já esperei numa sala onde se podia manusear exemplares da revista Country Music Weekly de 1992), e os suspiros não reprimidos de impaciência e indignação.
Também existe o fantasma do caos crescente. A agenda dos médicos, invariavelmente, saiu do controle, o recinto lentamente se enche de pacientes enquanto murmúrios de discussões e reclamações vêm da recepção, alguns viciados em celular realizam negócios - EM VOZ ALTA!!! - e crianças correm e logo são repreendidas, como se treinassem para uma corrida de touros.
Nessas salas de espera, sinto como se estivesse preso num pequeno aeroporto de um país minúsculo, cujo governo acabou de ser deposto, e eu tentando pegar o último avião para sair dali.
Porém, nas salas de espera da oncologia - profissionais de diagnóstico e cirurgiões, profissionais de quimioterapia e radiação -, quase ninguém fala num tom de voz de uma conversa normal, com exceção dos funcionários. Nessas salas, todos nós sabemos que nenhum de nós conseguiu pegar o último voo.
Nós, pacientes, geralmente desgastados e amedrontados, olhamos uns para os outros, às vezes balançamos a cabeça, às vezes não. Gosto de inclinar a cabeça e olhar nos olhos dos meus colegas pacientes, pois, por um instante, isso me liberta da prisão hiperativa do meu próprio pensamento. Mas também entendo aqueles que não querem. Eles têm medo de olhar para outro rosto e ver ali o seu próprio.
Uma sensação de exaustão paira no ar, e não é incomum que cônjuges saudáveis pareçam mais inconsoláveis que os próprios pacientes. Todos nós estamos cansados de exames e perguntas, cansados do medo e da raiva, cansados dos nossos planos de saúde, cansados de revistas e panfletos abordando o câncer - não temos mais paciência. Estamos fartos de sermos pontos de interrogação humanos.
Nessas salas de espera, nós, todos nós, estamos em jornadas obscuras, cada um de nós carregando uma história importante para contar. Porém, também nos sentimos cruelmente mortais, e não estamos preparados para contarmos uns aos outros nossas histórias bem ali, naquele momento. Quando se trata da história da nossa vida, sabemos que nos tornamos um drama de suspense.
No entanto, esse estado mental mudou um pouco quando fiz meu primeiro tratamento com radiação.
Enquanto esperávamos para receber radiação, esperávamos para sermos habilidosamente envenenados em direção à esperança da cura, havia menos fingimento, menos oportunidade de negar nosso câncer. Todos estávamos parcialmente vestidos com batas de hospital, todos usando pulseiras, e todos nós podíamos ouvir as batidas e chiados das máquinas de radiação.
Para a maioria de nós ali presentes, isso criava uma sensação silenciosa de camaradagem. Afinal, nós estávamos juntos no mesmo barco do câncer. Muitos de nós davam - e recebiam - sorrisos, acenos de cabeça e apertos de mão delicados, pois os ossos de pacientes de câncer podem ser muito frágeis. Alguns de nossos companheiros de barco recuavam, olhando para baixo ou para o lado, como um cachorro recusando um comprimido.
Falávamos em voz baixa, sussurros cansados, mesmo com toda a atividade ao nosso redor. Enquanto os enfermeiros, médicos, terapeutas e cientistas faziam seu trabalho, nós éramos um oásis de quietude.
A maioria de nós se reduzia a um borrão de nós mesmos, exauridos pelo estresse, deslocamentos e tratamentos. Até o "J" da minha pulseira de identificação foi apagado, o que me tornava "ennings". E é assim que eu me sentia.
Alguns dias, a área de espera era tão silenciosa quanto um velório, como se todos nós concordássemos tacitamente em participar de ensaios finais inesperados da nossa própria morte. Esse foi um dos motivos pelo qual eu insistia em ouvir heavy metal enquanto recebia meu tratamento de radiação.
Apesar de tudo, me sinto muito bem hoje. Com o passar das semanas, me sinto cada vez mais como eu mesmo. Não faço nenhum tipo de tratamento há meses, e meus exames de sangue estão do jeito que meu oncologista gosta.
Não há dúvidas de que terei de encarar mais salas de espera no futuro. Mas uma coisa posso dizer: quanto mais barulhenta e agitada, melhor.
* Dana Jennings é repórter do The New York Times. Seus posts sobre como ele lida com o câncer de próstata são publicados semanalmente em nytimes.com/well.
Tradução: Gabriela d'Avila
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