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#AgostoLilás: para delegada, mulheres da região de Aquidauana precisam ser fortalecidas

Delegada Joilce Ramos diz que o trabalho com vítimas de violência doméstica é árduo

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Estamos no Agosto Lilás, mês criado para maior conscientização da luta diária contra a violência doméstica, principalmente contra o feminicídio. Até agora, o Mato Grosso do Sul já registrou mais de 2 mil ocorrências em que as vítimas são mulheres que sofreram violência física, moral, sexual ou financeira.

Atuando em Aquidauana desde setembro do ano passado, Joilce Silveira Ramos é delegada da DAM (Delegacia de Atendimento a  Mulher), mas também já atuou na DEAM de Campo Grande. São 14 anos na polícia, todos dedicados ao atendimento às mulheres.

Os anos de experiência lhe trouxeram uma certeza: o agressor nunca irá cometer um feminicídio “do nada”, algo já considerado passional. A agressão é sempre gradativa e funciona em ciclos. Começa com uma humilhação, que se tornam xingamentos, ai ameaças seguidas de tapas ou puxão de cabelo, empurrão, que passa para os socos e chutes... Que termina em facada ou tiro!

Ariadni Molina tinha 26 anos e foi assassinada a tiros pelo ex-marido em abril, no bairro Nova Aquidauana.

“Se a mulher consegue romper definitivamente em alguma desses ciclos iniciais, dificilmente ela será vítima de uma feminicídio. Essa é a nossa luta! Que a mulher consiga dizer não em uma dessas fases e romper de vez com a violência doméstica”, explica Joilce para O Pantaneiro.

Os tempos na Capital fez com que a delegada conseguisse observar a forma que as mulheres atendidas na delegacia de Aquidauana lidam com a violência. Enquanto em Campo Grande 50% dos boletins feitos são de agressões psicológicas, ou seja, antes do primeiro tapa, em Aquidauana a mulher está sendo agredida com chicote de cavalo a ainda assim precisa ser orientada que aquilo não é normal.

“Vejo essa região com muito machista. São homens machistas e mulheres muito submissas. As mulheres ainda não estão fortalecidas o suficiente para registrar uma ocorrência, pedir medida protetiva e romper com o ciclo de violência. Elas ainda não acreditam que o estado tem sim como a proteger e tirar daquela situação”, destaca.

Joilce Ramos é titular da DAM Aquidauana (Foto: Vinicius Eduardo)

É em casos assim, que o CRAM (Centro de Referência ao Atendimento à Mulher) desenvolve o papel de primeiro atendimento às vítimas e suporte psicológico também aos filhos. Realizando cerca de 40 atendimentos por mês. Luciana Campelo é assistente social em um Centro de Aquidauana e diz que ver uma mulher “se perder” em meio a tanta violência marca profundamente.

“Uma das maiores luta é fazer com que muitas mulheres se percebam como vítima de violência, pois elas estão tão acostumadas a ter seus direitos violados que pensam que isso é normal. E outra grande luta e proporcionar que a vítima seja alcançada por uma rede de apoio bem estruturada, não só de entidades governamentais e não governamentais, mas principalmente por pessoas próximas como familiares, amigos, vizinhos e outros que estejam dispostos a amparar essa mulher sem julgamentos”, aponta Luciana.

Importância da Lei Maria da Penha

No último dia 7, a Lei Maria da Penha completou 14 anos de existência. Ela leva o nome de uma farmacêutica que sofreu duas tentativas de homicídio por parte do ex-marido e ficou paraplégica. Só conseguindo denunciar os abusos depois de 23 anos.

Maria da Penha se tornou símbolo da luta contra a violência doméstica.

Para a delegada Joilce, a Lei é um marco! Existe o enfrentamento da violência doméstica antes e depois da criação dela. Ainda há homens que consideram inconstitucional algumas medidas aplicadas pela Maria da Penha, mas eles não perder nenhum direito de bens ou guarda dos filhos.

“A título de exemplo: antes da Lei, se uma mulher sofresse agressões e ficasse 28 dias internada, a agressão era considerada leve, pois só é considerado grave quando a vítima fica 30 dias afastada das atividades. O agressor, então, ia apenas ter que pagar uma cesta básica à comunidade, ficando preso por apenas uma noite”, lembra Joilce.

Com as medidas exigidas na Maria da Penha, tudo é tramitado em no máximo 48 horas. É muito mais eficaz e rápida que em outras situações judiciais. Além disso, os locais de atendimento já adiantam todas as questões mais burocráticas, como divórcio, divisão de bens e paternidade.

“Ela veio para proteger e prevenir a violência contra as mulheres de forma ampla. Esta Lei dissipou a cortina de fumaça em que "briga de marido e mulher ninguém mete a colher" e traz ferramentas importantes de segurança, como a Medida Protetiva”, afirma Luciana.

Por fim, a delegada diz que as mulheres que ainda não sabem com o quê estão lidando com seus companheiros, mas desejam um esclarecimento ou apenas uma simples conversa, a delegacia está aberta para isso. A DAM funciona em horário comercial e está localizada na Rua Sete de Setembro.

“Para mim, agressor bom é agressor preso! Já com relação às vítimas que acabam retornando para o ciclo, digo que ‘sinto como se estivesse enxugando gelo com toalhas, mas eu vou comprar tantas toalhas forem necessárias, pois não vou desistir’, como diz a delegada da DEAM, Célia Bezerra”, conclui Joilce. 

 

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