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Aquidauana

Colecionador de histórias e grandes feitos, Seo Garcia completa 100 anos

"Não tenho dinheiro para mandar fazer uma rádio, comprar ela pronta? Eu vou fazer ela"

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Às vésperas da chegada do ano novo, hoje (30) é dia de festa para um aquidauanense de coração que completa 100 anos. Nascido em Campo Grande, Antonio Rodrigues Garcia, o Seo Garcia, como é mais conhecido, escolheu a Princesa do Sul para viver.

Residindo há muitos anos em frente à Escola CEJAR, Seo Garcia esbanja saúde. Recebe algumas visitas e acolhe todas as mensagens de felicitações. Teve três filhos com Emigdia Armoa Garcia, a Dona Tota Garcia, com quem foi casado por mais de 70 anos e vivenciaram uma das mais belas histórias de amor do Pantanal, sem dúvida. 

Dona Tota

Enquanto a maioria das nações do planeta estava envolvida nos violentos conflitos da 2ª Guerra Mundial, o ano de 1942 marcava o surgimento de um amor que começou em Bela Vista, município sul-mato-grossense distante 230 quilômetros de Aquidauana, onde a história continuou até hoje. Com 16 anos à época, a adolescente Emigdia Armoa, conhecida como Tota, morava na cidade que faz fronteira com o Paraguai, acompanhada dos pais e irmãos. O jovem Antonio Rodrigues Garcia, 20 anos, estava em Bela Vista para servir o Exército. Paixão à primeira vista, tal qual o nome do município.

Seo Garcia e Dona Tota - Foto: Arquivo 

Com as dificuldades que acompanhavam todo início de namoro de antigamente, sendo vigiado pelos pais e irmãos da moça, o militar presenteou a companheira com um livro de memórias, dado no Dia dos Namorados. O diário ficava alguns dias com ele, outros com ela, tornando-se a maior testemunha de um romance que virou casamento apenas um ano depois, em 1943.
 
O casal veio morar em Aquidauana, cidade que passou a ser palco de uma das mais belas histórias de amor do Pantanal, sem dúvida. Seo Garcia e Dona Tota eram bastante conhecidos por participarem de trabalhos filantrópicos. "Ele sempre foi e continua sendo muito romântico", dizia Dona Tota, ao lembrar que Seo Garcia continuava a presenteá-la com flores.

De Martelinho à Independente

A história da Rádio Independente de Aquidauana se confunde com a história de Antônio Rodrigues Garcia. Natural de Campo Grande, o fundador da emissora nasceu em 30 de dezembro de 1922 e aos 18 anos de idade, na década de 1940, passa a residir no município de Ponta Porã na fronteira com o Paraguai, para servir ao Exército Brasileiro.

Em 1942, com 20 anos de idade, o então sargento Garcia se estabelece no município de Bela Vista para atuar no 10° Regimento de Cavalaria Independente (RCI), após ter solicitado transferência de Ponta Porã-MS, onde serviu de 1940 a 1942. Em Bela Vista, também na região de fronteira, conheceu Emígdia Armôa (in memorian), na época com 16 anos de idade. Após um ano de namoro, em 1943, acontece a união matrimonial que resulta nos três filhos: Luiz, Edson (in memorian) e Geraldo.

Em 25 de outubro de 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, numa cerimônia bastante discreta pois Garcia, sendo militar e em estado de alerta não poderia se casar sem autorização de seu comandante, o casal contrai as suas núpcias às oito horas da noite na Igreja Matriz de Santo Afonso. Com o término da guerra, Garcia decidiu deixar a carreira militar. Em 31 de março de 1945 deu baixa. Agora, paisano e casado, volta para Ponta Porã onde havia permanecido sua família. Em 1950, o casal e os três filhos nascidos em Ponta Porã retornam para Bela Vista para, em 01 de julho de 1952, se mudarem para Aquidauana .

Embora o trabalho efetivo numa estação de rádio tenha se concretizado em Aquidauana, Antônio Garcia conta que foi aluno do Instituto Técnico Monitor LDTA de São Paulo na década de 1950 quando ainda residia em Ponta Porã. O curso profissionalizante para conserto de rádio era oferecido na modalidade à distância por meio de correspondência. Inicialmente o intuito do curso era adquirir conhecimento técnico necessário para construir uma estação de rádio em Pedro Juan Caballero no Paraguai. No entanto, o desconhecimento da legislação de radiodifusão do país vizinho o fez desistir da inciativa.

O Pantaneiro lança um documentário "Centenário de Antônio Garcia" em janeiro de 2023.

Em Bela Vista, conforme relato, Antônio Garcia trabalhou com o serviço de alto-falantes. A experiência no ramo somado ao conhecimento do curso de conserto de rádio o credenciou para atuar, na década de 1950, como técnico em eletrônica da Rádio Difusora de Aquidauana a convite do proprietário e fundador Elídio Teles de Oliveira.

“Eu vim para Aquidauana em 1952 já com o convite para trabalhar na Rádio Difusora. Trabalhei por quase dez anos. Eu era locutor e, também, cuidava do transmissor”.

Segundo ele, na Difusora a proximidade e amizade estabelecida com o técnico de rádio Francisco Romero, foi fundamental na troca de experiências a respeito de conhecimentos técnicos de radiodifusão. “Na época, ele me ensinou como fazer uma estação de rádio, pois como ele era o técnico operacional, ele havia acompanhado o Elídio Teles de Oliveira na construção da rádio”.

Na década de 1960, após atuar na rádio Difusora de Aquidauana, Antônio Garcia decidiu concretizar o sonho que trouxe consigo de Ponta Porã, o de implantar uma estação de rádio dando início, assim, a construção de forma manual da segunda emissora aquidauanense: a Rádio Independente.

Aos 100 anos, Seo Garcia dando risadas e relembrando as histórias da vida. - Foto: Marjorie Arruda

Era preciso comprar os equipamentos numa fábrica autorizada só que eu pensei:

 “Mas eu não tenho dinheiro para mandar fazer uma rádio, comprar ela pronta? Eu vou fazer ela”.

Eu construí desde o toca-discos, com dois motores que havia ganho, sem prato, só os motores. Fiz a mesa de som, numa dessas oficinas ali na esquina da rua Estevão Alves Corrêa. Utilizamos pistões de automóveis que eram de alumínio. Fundimos a peça que eram os pratos para o motorzinho. Fiz a consola do princípio ao fim. A caixa, o circuito, depois o transmissor também. Tudo feito à mão.

A primeira vez que foi ao ar em 1961, em caráter experimental, a emissora estava situada na Rua Assis Ribeiro junto ao prédio da Casa Tamashiro, local onde Antônio Garcia residia com a família. Para o êxito da iniciativa, o fundador da emissora reitera a parceria estabelecida com o ex-técnico da Difusora, Francisco Romero.

O Chico Romero gostava muito de mim, porque eu era um companheiro de conversa, de trabalho. Ele que me orientava. O dia que eu liguei o transmissor para ir ao ar ele ficou surpreso [...] estava tudo certo e no ar com 250 watts. Isso foi em 1961, porque em 1962 eu já tinha da Comissão Técnica de Rádio, a frequência. Mandaram eu entrar em experiência e me deram o prefixo ZYX 20.

Na época, a Independente era conhecida como Rádio Martelinho. “Eu estava lá numa tarde trabalhando, justamente na construção do transmissor, e umas moças que vieram visitar minha esposa perguntaram: essa que é a martelinho?”, recorda-se o fundador. Segundo Robba (1992, p.81), o nome faz referência ao trabalho artesanal desenvolvido por Antônio Garcia durante a implantação da emissora. No dia da inauguração, o jornalista Álvaro Pontes, em seu discurso de saudação, comentou que ela havia sido construída a “martelo”. Por isso passou a denominar-se “a emissora do martelinho”.

A rádio funcionou inicialmente com equipamentos manuais desde o microfone até a torre de transmissão que possuía 42 metros de altura. Os primeiros equipamentos da estação foram compostos por um microfone feito com um pedaço de lata, um alto-falante, um transformador e 10 metros de fio.

Seo Garcia foi colunista do Jornal O Pantaneiro - Foto: Marjorie Arruda

[...] entramos no ar até eu ir podendo trocar o microfone e comprar o gravador de fita. A rádio funcionou durante uns doze anos com equipamentos que eu havia construído. Depois, eu fiz uma mesa de som nova com válvulas modernas. Até a torre foi a gente que fez. Essa torre, que os atuais donos compraram, está em cima da base que eu construí. Montei ela de baixo para cima sem tirar os pés do chão. Levantei ela já com os estais.

Os equipamentos manuais foram aprovados pelo Departamento Nacional de Telecomunicações (DENTEL) sendo considerados “dignos da confiança dos seus técnicos e fiscais do funcionamento do rádio no Brasil”. De acordo com Antônio Garcia, a construção manual dos equipamentos “não foi um “milagre” da técnica, mas, um “milagre” da força de vontade e da certeza de que poderíamos fazê-lo, embora não com a perfeição de uma indústria de equipamentos de estações de Rádio [...]”.

Após conseguir a concessão para operar, Antônio Garcia começou a construção do Edifício Garcia, situado na Rua José Bonifácio, Bairro Alto de Aquidauana, para abrigar a sede da emissora, inaugurada oficialmente com transmissão regular em 1º de maio de 1962. No térreo, ficava o estúdio e demais salas que abrigavam as instalações da rádio. Já no piso superior, foi construída a residência da família onde o fundador reside atualmente.

Desejamos um Feliz Aniversário, Seo Garcia!!

 

 

*Com Helder Lima

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