Repercussão
Quando o assunto é tabu, em que página do tempo realmente estamos?
O dia de ontem (12) "pegou fogo". Não teve queimada ou foco de incêndio na região pantaneira, mas ao contar a história de Rafaela Dias, 29 anos – a prostituta de Miranda que não se envergonha da profissão que exerce –, para muitos os humores deram uma "esquentada" e a tensão ficou no ar.
De personagem, a acompanhante em questão virou "ré" no tribunal popular, ganhando até mesmo a acusação e "pena" instantânea de ser uma "má influência" para as pessoas.
Rafa passou de acompanhante (escort girl, garota de programa, prostituta ou simplesmente p*) para "má influência".Para aqueles que consideraram que O Pantaneiro só quis jogar lenha na fogueira, aproveitamos: toda história possui seu valor e merece ser contada. Do rico ao pobre, do empresário ao artista, do idoso vivido ao jovem sagaz, até mesmo da prostituta mirandense em questão.
O que não vale, porém, é jogar "pedra na Geni" – como diria trecho de canção escrita por Chico Buarque para o musical "Roda Viva", em que uma meretriz é excomungada pela comunidade onde vive mesmo após ser a "salvadora da pátria".
Na página no Facebook do O Pantaneiro, reportagem ganhou polêmica: ela deveria sentir vergonha ou ter orgulho?Agora, quem acredite que ao se contar determinada história, fazer enquadramento da vida ou revelar alguma temática está sempre a levantar a bandeira da apologia, questione-se:
Quando o assunto é tabu, onde no tempo você se encontra?
Quando o assunto é sobre seu exercício profissional, Rafa confirma: "sou uma p* mulher, e não uma mulher p*"."Cada um tem a sua história. Eu optei pela prostitução, mas isto não significa que outras fizeram o mesmo ou muito menos que todo mundo deveria fazer. Cada um sabe bem o que faz. Escolha feita significa estado de consciência, de pessoa adulta como foi o meu caso. E assim como qualquer um, eu também mereço contar as minhas experiências", opina Rafaela.
"O que sempre faço questão de manter
é a minha resposta sincera".
Entre comentários e compartilhamentos nas redes sociais do O Pantaneiro, a repercussão da reportagem de ontem (12) foi das grandes. Pais e mães questionaram o fato do "convite" à "vida fácil". Para isso, uma resposta na ponta da língua.
"Ganha a vida fácil", "deveria se envergonhar", "reportagem desnecessária": qual o limite da nossa verdadeira opinião?"Precisamos estar cientes do mundo. Não falar sobre é o verdadeiro 'crime', assim como esconder não é para sempre. A verdade é a base de tudo", reflete.
E por falar em "vida fácil", Rafa contesta veemente.
"Antes eu viajava muito. Com a pandemia, porém, fiquei quase o ano passado todo sem atendimentos. Chegou uma hora que eu realmente tive que voltar ao trabalho. E também é bom frisar que não sou obrigada a atender qualquer homem que me aparecer. Sou dona de mim mesma em primeiro lugar. Se eu sentir boas energias, sigo em frente", afirma.
Rafa acredita que sua trajetória de "melindrosa" não deveria ser tabu, mas uma escolha consciente, como foi a dela.Foi com esse mesmo respeito e dignidade que Rafa se sentiu à vontade para compartilhar sua história com O Pantaneiro. Para ela que é prostituta, nem sempre sua atividade é feita de "rapidinhas" e prazeres.
"Vender meu corpo é apenas parte do trabalho. Tem muito mais do que isso. Às vezes, sou contratada para ser a companhia do cliente. Eu sou o 'sair da rotina'. Foi uma escolha a qual não arrependo pois sou o meu próprio negócio, e assim sobrevivo. Pela lei brasileira, não estou fazendo nada ilegal. Então pra quê julgamentos?", finaliza com a pergunta.
Mesmo entre julgamentos, há quem fez questão de compartilhar positividade e parabenizações à coragem de Rafa.
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