O presidente da Comissão Especial de Anistia da Câmara, Daniel Almeida (PC do B-BA), vai entregar ao Ministério Público na próxima semana um relatório minucioso sobre um militar que confessou, em detalhes, ter torturado civis na época da ditadura na guerrilha do Araguaia. O documento se refere ao depoimento do tenente da reserva José Vargas Jiménez, que foi à comissão na última quarta-feira (3).
"Não foi um depoimento. Foi uma confissão. E o mais grave: uma confissão de uma pessoa que falou com franqueza, frieza e convicção tudo o que foi feito", disse Almeida. "Ele [o tenente] relatou tudo como se fossem absolutamente normais e naturais os atos cometidos."
A discussão vem à tona no momento que o governo federal vive o impasse da indefinição sobre responsabilizar ou não os crimes de tortura ocorridos na ditadura (1964-1985). Para o deputado, o depoimento de Jiménez deve ser uma espécie de divisor de águas para comprovar que os crimes de tortura não prescrevem.
"Devem ser tomadas providências. Uma pessoa não pode relatar absurdos como se tudo fosse natural e sem conseqüências. Inocentes foram torturados e mortos de maneira chocante", disse o deputado.
No depoimento prestado à comissão, o militar afirmou que participou de operações em que "cabeças foram decepadas", "pés e mãos cortados", além de colocadas pessoas em "formigueiros" para que confessassem supostos crimes políticos. "Foi tão impressionante, que é difícil dizer o que chocou mais", disse o deputado.
Pelas informações prestadas à comissão, os guerrilheiros que foram assassinados e tiveram cabeças, pés e mãos cortados foram os militantes do PC do B André Grabois, João Alberto Calatroni e Antônio Alfredo de Lima.
O deputado disse que pretende encaminhar ao Ministério Público a transcrição e a própria fita gravada com o depoimento de Jiménez. Segundo ele, o material é fundamental para futuras investigações.
Na sessão na comissão, o tenente disse ainda que mantém vários documentos relativos à operação realizada no Araguaia. Segundo o deputado, esses documentos serão requeridos porque não pertencem ao militar. "Ele [Jiménez] não pode tomar para si documentos que pertencem ao Estado e são de interesse da sociedade."