Diversidade
Dando vida a personagem Sarah Rodriguez, rapaz já conquistou até título de miss
Por trás do corpo tatuado, da barba rala no rosto e das roupas de menino, se esconde uma drag queen que é a cara de Aquidauana. Basta um pouco de maquiagem, um "saltão" empoderado e um vestido "do babado" para que Maicon Paes Rodrigues, 30 anos, se transforme na personagem Sarah Rodriguez, a metade que o faz ser "completo". Porém, essa metamorfose artística não acontece da noite para o dia, mas faz parte de um processo pessoal que envolveu – antes de tudo – muita autoaceitação.
Homem gay, Maicon também se veste como a drag queen Sarah Rodriguez – seu alter ego feminino "do babado"."A vontade em me tornar drag queen sempre foi grande dentro de mim. Mas o medo dos outros, e por conseguinte de me sentir realizado, me impedia de sequer tentar. Só aos 26 anos que decidi que não precisava contar com a opinião das pessoas, pois a que mais importava era a dos meus pais – e a deles eu já tinha", explica o professor de dança, cabeleireiro e vendedor autônomo nas horas vagas.
Maicon conta que se assumir homem gay foi a decisão mais difícil que já tomou na vida. Na sequência, o de revelar Sarah como seu alter ego. "É uma aflição guardar segredos tão particulares e, na hora de compartilhar com aqueles que você ama, não saber o que esperar da reação do outro. É uma incerteza. Porém mal sabia eu que meus pais iriam me apoiar 100%, dando a força que eu tanto precisava. Eles me ofereceram nada menos do que amor. São meus heróis", agradece.
Registro de Sarah junto da mãe; para ela, seus pais são os "heróis" cheios de amor no seu processo de autoaceitação.É preciso explicar: a arte drag queen se trata de um movimento performático onde o artista – independente de gênero e sexualidade – se traveste/fantasia-se da maneira que bem quiser, geralmente de maneira feminina e por vezes com traços mais exagerados. No caso de Maicon, da miss comportada e elegante Sarah Rodriguez.
Tudo aconteceu no ano de 2017. "Estávamos eu e uns amigos em Campo Grande. Decidimos juntos sair montados pela primeira vez e irmos numa balada. Foi muito divertido! Nem sabíamos nos maquiar, não tínhamos as roupas adequadas nem nada, então contamos com a ajuda de uma amiga pra lá de especial, a Veronica Peres. Depois dessa primeira experiência, demos continuidade e cada vez mais incorporamos a arte drag em nossas vidas", recorda.
Naquele mesmo ano, Maicon participou do concurso Miss Gay Aquidauana e ficou com o título. No ano seguinte, em 2018, concorreu ao Miss Gay Diversidade Anastácio, onde conquistou a faixa de Miss Plus Size. Já na Capital, também levou para a casa o 2º lugar da mesma categoria, ao integrar o time de campeãs do Miss & Mister MS Gay.
Premiada, Sarah já participou de concursos e levou títulos pra casa, como o 1º lugar no Miss Gay Aquidauana de 2017.Inspiração – "Ser drag não é só colocar um vestido e uma peruca, mas mostrar o seu melhor sem medo de ser feliz. É ser exatamente do jeito que você quer e pode ser". É assim que Maicon resume o que Sarah representa na sua vida.
Para ele, não é fácil ser uma drag no interior do estado, onde esse tipo de comportamento ainda causa olhares de estranheza. Na realidade, por isso e também pela falta de um espaço próprio e inclusivo da comunidade LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers, intersexo, assexuados e outros grupos), como seria em uma balada gay, Maicon só consegue praticar o seu lado de Sarah participando de concursos e se mostrando nas redes sociais. Nesse sentido, ele pode contar com muita ajuda.
"Tenho meus parceiros e apoiadores que me dão maior incentivo na arte. Roupas, maquiagem, perucas, dou meu jeito de conseguir para montar e ficar com o look perfeito. Minha costureira de longa data, do ateliê Elizabeth Lima, fica responsável pela fabricação dos vestidos que uso a cada concurso. De resto, muita improvisação", afirma. E adiciona: "minha mãe sempre fez questão de me acompanhar nos concursos e dar aquele 'help' que só quem é mãe pode dar. Isso me dá um tremendo orgulho", confessa.
Sem medo de ser Sarah, Maicon mostra verdade dentro e fora do coração (Foto: Alexsander Arguelo Fotografia)De lá pra cá, Maicon não abandonou o seu "jeitinho" de Sarah, apenas deu uma diminuída nas montações principalmente devido a pandemia de covid-19. Entretanto, mais recentemente, levou novo prêmio para a casa: o de Miss Simpatia. Sem fazer idas presencialmente à Campo Grande, onde se sente mais à vontade para dar vida à sua personagem drag, o rapaz faz o que dá no on-line.
Com a chegada de junho, considerado o mês da diversidade, seu maior desejo é que daqui em diante nada mais fique escondido "debaixo do tapete". "Eu e minhas colegas não somos motivo de piadas nem risadinhas. Merecemos respeito como todo mundo. E unidos somos mais fortes", reflete.
E finaliza: "mesmo eu particularmente sendo uma drag no interior, continuo dando cara a tapa, levando Sarah seguramente comigo, no meu coração. Independente de julgamentos, mostro talento pelo suor gasto e pelo brilho de um vestido de paete", finaliza.
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A cada semana do mês de junho, O Pantaneiro lança uma reportagem diferente sobre o mesmo tema: #Diversidade. Contando histórias da nossa gente, a série promove uma reflexão sobre respeito, amor e aceitação – independente de gênero e sexualidade.
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