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De vítima a vilã

A história da nude de Dandara, enviada exclusivamente à um mas que praticamente todo mundo viu

Professora da rede municipal "chocou" ao ter fotos íntimas vazadas; passados seis anos, lembra o gosto amargo de ser taxada como a vilã, mas nunca a vítima

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Dandara Rezende da Costa, 37 anos, hoje sabe bem o poder que uma imagem tem. Mas ela só descobriu isso após ter sua intimidade violada, quando fotografias de seu corpo nu foram expostas para quem quisesse ver, compartilhadas por uma pessoa que até então ela tinha total confiança – outra lição que já aprendeu.

O ano era 2015. Saindo do seu controle, a situação culminou em demissão do trabalho, depressão, tentativa de suicídio, mudança de cidade e drama judicial. E claro, muito machismo e misoginia contra sua figura, entre xingamentos e apontamentos de dedo pelas costas. Tudo por conta da nude. De vítima, se tornou a vilã do dia para a noite. Hoje, página virada.

Em 2015, Dandara teve fotos íntimas vazadas e foi taxada de vilã da história, mesmo que pela lei é considerada vítima.

Mas por que Dandara resolveria voltar a bater nessa mesma tecla, revivendo momentos de tristeza, dor e agonia? Para ela, resposta na ponta da língua:

"Para que outras mulheres nunca
passem pelo que eu passei".

Ao O Pantaneiro, ela divide em primeira pessoa a sua versão da história, argumentando sua inocência, idoneidade, e mostrando que – por mais que foram os seis mais longos anos que já viveu – existe sempre uma luz no fim do túnel a qual podemos recorrer.

"Meu nome é Dandara e tive o vazamento de imagens íntimas em 14 de agosto de 2015, isso por uma pessoa que eu conhecia desde os tempos de adolescente...

Ao O Pantaneiro, ela resolveu dar o seu ponto final para precaver outras pessoas o que de fato pode acontecer.

Na época, tivemos um relacionamento curto, de poucos meses. Ele fazia Direito em Campo Grande e aproveitávamos quando vinha para nos relacionarmos. Ao contrário dos vários boatos que surgiram após a exposição das nudes – de que eu era garota de programa, de que as imagens em questão foram vendidas, etc. – ele estava sim 'separado' de outro alguém e, portanto, ambos éramos solteiros e responsáveis para fazermos o que bem quiséssemos.

As imagens foram enviadas quando eu estava em casa, de bobeira, conversando com ele pelo WhatsApp. Surgiu uma brincadeirinha de que eu estava muito magra, de que 'deveria estar caindo tudo'. Eu, como mulher bastante vaidosa, disse que pelo contrário, estava com 'tudo em cima'. Fora sermos amigos, tínhamos química e intimidade para trocar nudes. E também não vou negar que vivíamos tendo certas 'recaídas'. Já havíamos trocado fotos antes, então não tinha desconfiança dele.

Primeiramente, mandei uma foto minha só de calcinha e blusa de pijama. Insistente, escreveu que não dada para ver nada. Foi aí que mandei as tais fotos íntimas do meu corpo todo.

Passaram-se alguns dias. Num dia, tomamos tereré juntos, ele brincou: 'ainda tenho suas fotos guardadas!'. Eu ordenei para ele apagar pois éramos 'conhecidos' na cidade, afinal nós dois exercíamos cargos públicos e morávamos no interior. Falei em alto e bom som 'já imaginou se essas fotos vazam?! Apaga, por favor'. Foi quase como se eu já estivesse pressentindo o que estava por acontecer.

Preciso dizer: eu me considero uma pessoa autêntica, apaixonada em mim. Nunca tive problema em tirar fotos, sejam elas selfies ou nudes, tanto é que eu já havia enviado anteriormente e confesso que inclusive outras mais bonitas, com ângulos 'melhores' do que as que vazaram.

Quanto ao desenrolar dessa história, sobrou mesmo foi pra mim. De vítima virei a vilã. Entre apontamentos de dedo e calúnias, fui rotulada como uma pessoa que não merecesse respeito. Isso sim foi a maior das injustiças. É o preço que se paga enquanto mulher que tem a intimidade violada e exposta à sociedade machista que vivemos.

Na época, eu ainda estava trabalhando como conselheira tutelar em Aquidauana e professora da rede pública municipal das séries iniciais. Inclusive, tinha acabado de chegar de um dos meus atendimentos quando um conhecido me ligou falando o que tinha visto, mas não soube passar mais detalhes. Naturalmente, liguei imediatamente para a única pessoa que eu sabia que tinha posse das minhas fotos íntimas. 'Você as mostrou para alguém?'. Ele negou, disse que guardou por quase 1 mês e que depois havia deletado".

Vaidosa, Dandara nunca teve problema em tirar selfies, sejam elas do corpo ou rosto; assim, enviar nudes era "natural".

Vazamento – "Mas fato foi que na véspera do aniversário da cidade, em 2015, onde participei do Desfile Cívico daquele ano, tive a confirmação da mentira dele e a certeza de que havia sido traída. Todos me olhavam entre caras e bocas, e eu sabia que estavam comentando sobre o assunto pelas minhas costas. Aquele dia não foi fácil.

Uma semana depois, perdi as 20 horas-aula semanais de professora. Já estava afastada com atestado médico e fazendo terapia para tentar sobreviver àquilo. Quando veio o período eleitoral para novo mandato no Conselho Tutelar, outros candidatos usaram o ocorrido para 'sujar' minha imagem profissionalmente utilizando a história da nude. Entretanto, meu árduo trabalho enquanto conselheira falou mais alto, coisa que sempre me dediquei ferrenhamente. Tentaram barrar minha candidatura, o qual não tiveram sucesso. Fui eleita e mantive o cargo. Graças à Deus.

Eu, que sempre mantive a fé em Deus e ando de cabeça erguida, não fiz diferente. Minha família e amigos me apoiaram nessa fase difícil. Principalmente, algumas pessoas da nossa comunidade que se sensibilizaram por mim. Só assim consegui ter forças e ir nas rádios locais e relatar que era vítima dessa história, que o indivíduo deveria ser responsabilizado por crime cibernético, conforme a Lei Carolina Dickemam.

Pelo menos, na época, a minha exposição íntima serviu para conscientizar a população sobre o assunto. Porém, muitas outras pessoas continuaram a me discriminar, fazendo comentários maldosos, terríveis, daqueles de ferir a alma, sabe? Não foi à toa que passei pela depressão e tentativa de suicídio. Caso minha família e amigos também tivessem me julgado, apontado o dedo e feito tais críticas, eu não estaria aqui para contar essa história.

Pois graças a Deus sobrevivi! Fiquei um bom tempo sob cuidados redobrados, familiares e médicos. É claro que não só eu, mas todo mundo mais próximo de mim foi afetado. Infelizmente, o ser humano não tem empatia e pudor com certas atitudes, se tornando 'juíz' alheio sem nem conhecer a verdade do outro. De vítima, passei três anos sendo taxada de vilã.

Registro de quando decidiu sair dos "holofotes", ao se afastar do trabalho pelo INSS e até mudar de cidade, "de vida".

Após retomar o cargo de conselheira e trabalhar assim por praticamente 1 ano, o lado emocional falou mais forte e tive que novamente me ausentar, iniciando um tratamento mais profundo de depressão clínica, sendo amparada pelo INSS. Durante o tratamento, fui orientada pelo médico, psiquiatra e psicóloga a sair do município, deixar um pouco os 'holofotes'. Assim o fiz.

Conheci uma pessoa bastante especial na minha vida que me deu base para sobreviver. Nos casamos e fui morar por um curto período em Corumbá, com tratamento continuado ainda em Aquidauana. Fora todo aquele sofrimento parcialmente enfrentado, passei por um desgaste judicial quando acabei perdendo o cargo no Conselho Tutelar por estar fora do município de Aquidauana.

Na época, já estava morando a maior parte do tempo em Nioaque, próxima às minhas filhas e também da mãe. Não consegui nem ficar em Corumbá muito menos Aquidauana, cidade onde nasci, fui criada e onde tudo aconteceu. Se não fosse o amor imensurável de Deus, minha família e meus verdadeiros amigos, acredito hoje que não estaria mais neste mundo mesmo. Apesar de tudo o que aconteceu, nunca perdi a fé e a força de vontade em comprovar minha 'inocência'.

Mãe de duas filhas, Dandara conta que só sobreviveu devido às suas "melhores amigas", além do apoio familiar.

Resolução – O mundo dá mesmo voltas e Deus é misericordioso. Com ajuda de advogados, os quais considero como 'anjos' no cruzaram o meu caminho, fui para a batalha judicial contra o verdadeiro responsável do crime, juntando todas as provas que pude para mostrar a calúnia e difamação contra a minha pessoa. Essa jornada durou três longos anos.

Em todas as audiências, tinha a certeza que Deus faria justiça, afinal só ele conhece a sinceridade no meu coração. Ganhei na instância estadual, onde as partes envolvidas o dito cujo e uma outra pessoa foram condenadas criminalmente. Mas já cansada de reviver essa dor, um momento tão triste da minha vida, em que só após a ação civil tive o erro 'reparado' da minha imagem, resolvi propor um acordo e acabar com tudo aquilo. Assim, venci e virei essa página manchada.

Hoje, a aquidauanense já voltou à rotina de professora que tanto ama, cargo que anteriormente havia sido "enxutada".

Tive a oportunidade de retornar finalmente para Aquidauana, ainda de cabeça erguida. Meu coração estava feito: sabia a verdade por trás o que se passou, e que a minha intimidade não interessa a ninguém.

Voltei a estudar, fiz duas pós-graduações e tive o sabor da verdadeira vitória: retornei ao meu cargo de professora, que amo tanto. Isso já tem dois anos. Em plena pandemia, pude tornar meus dias e dos meus aluninhos mais felizes. E assim venho feito. Atualmente me sinto uma mulher honrada, dando continuidade à minha vida tanto pessoal quanto profissional, isso ao lado das minhas três filhas que são as minhas melhores amigas.

Verdade seja dita: por todos os xingamentos, críticas, demissões, problemas de saúde, ações na justiça, enfim, por tudo o que eu passei, as pessoas não tem noção do valor da palavra – no caso uma foto –, de quanto ela pode destruir uma vida. Essa lição eu aprendi na pele".

Denuncie – Assim como outros delitos, o crime que acontece nos meios digitais, na esfera da internet, deve ter boletim de ocorrência registrado em qualquer unidade da Polícia Civil. Dirija-se à delegacia mais próxima ou faça o B.O. on-line agora mesmo.

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