LUTO
Ex-artecolunista do jornal O Pantaneiro, servidor aposentado da Caixa Econômica Federal, historiador e poeta, Jair construiu uma trajetória marcada pelo amor à palavra, à memória e à comunidade.
A cultura regional amanheceu mais silenciosa com a notícia da partida de Jair Ferreira da Silva, aos 77 anos, em decorrência de complicações cardíacas, ocorrida na madrugada desta quarta-feira de cinzas, 18. Ex-artecolunista do jornal O Pantaneiro, servidor aposentado da Caixa Econômica Federal, historiador e poeta, Jair construiu uma trajetória marcada pelo amor à palavra, à memória e à comunidade.
Homem de fala aguçada e coração generoso, foi um profissional exemplar durante sua atuação na Caixa Econômica, onde consolidou uma história de responsabilidade e respeito. Mas foi na cultura e história que deixou marcas ainda mais profundas.
Seu corpo está sendo velado na Pax Universal de Aquidauana e o sepultamento está programado para às 16 horas, no Cemitério Municipal.
O poeta que levou versos aos muros
Em plena pandemia do coronavírus, quando o isolamento afastava as pessoas dos encontros e das bibliotecas, Jair encontrou uma forma singular de manter a arte viva e acessível. Com recursos próprios, passou a escrever e fixar suas poesias nos muros de Aquidauana.
Historiador apaixonado por versos rimados, ele revelou, em entrevista ao O Pantaneiro, que sua inspiração nasceu ainda na infância. Filho de pais nordestinos que migraram na década de 1930 fugindo da seca, Jair teve seu primeiro contato com a literatura de Cordel aos nove anos de idade, quando o pai retornou do Nordeste trazendo diversos folhetos. Foi ali que o menino absorveu, com encantamento, o ritmo, a métrica e a força das narrativas populares.

Formado em História, publicou artigos e poesias e dedicou-se a registrar fatos e personagens locais — entre eles, antigos moradores da tradicional Rua dos Ferroviários. Sempre atento ao que acontecia ao seu redor, transformava conversas e observações em crônicas e versos cheios de identidade.
Inspirado por relatos de professores universitários sobre a prática comum em países como Portugal e França de escrever poesias nos muros — arte conhecida como “poesias ao vento” — Jair criou sua própria versão: as “Poesias ao Tempo”.
“Com recursos próprios e poesias autorais, eu comecei a fazer as ‘Poesias ao Tempo’, pois as pessoas não estão mais pegando um livro para ler. Com os escritos ali na parede, ela poderá apreciar enquanto faz o seu caminho. Chama ‘ao Tempo’ por estar no muro, sujeito à ação de chuva e sol”, explicou na ocasião.
A iniciativa transformou muros em páginas abertas e o cotidiano em espaço de contemplação. Mesmo com as limitações impostas pela pandemia, ele mantinha planos de continuar unindo duas grandes paixões: seus versos e os monumentos históricos de Aquidauana, criando uma ponte entre poesia e patrimônio.
Um legado que permanece
Como historiador, poeta e cronista, Jair Ferreira da Silva ajudou a eternizar memórias, valorizar a cultura local e fortalecer a identidade da comunidade. Sua contribuição ultrapassa os textos publicados: está também nos muros, nas lembranças e nos corações daqueles que se emocionaram com suas palavras.

Neste momento de profunda dor, a família O Pantaneiro se solidariza com os familiares e amigos, expressando suas mais sinceras condolências. Que Deus conforte a todos e que o legado de Jair permaneça vivo como suas poesias — resistindo ao tempo, ao sol e à chuva, eternas na memória da cidade.
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