Na última segunda-feira (29/06) completei 43 anos de idade e nos últimos dias relembrei de aniversários, meus e de outras pessoas, em que estive presente. Já passei a data em aldeias indígenas, no meio da estrada (com um carro quebrado), na companhia de parentes e amigos, além de ter estado sozinho algumas vezes. É interessante como muitos de nós dá uma importância (exagerada, em minha opinião) à data de nascimento, enquanto outros não gostam nem mesmo de revelar o dia em que vieram ao mundo. Aproveitei o último aniversário, sem festa ou reunião, para pensar sobre os últimos 25 anos, desde que decidi me mudar de São Paulo para Mato Grosso do Sul, vindo morar em Aquidauana com meus tios, lá pelos lados da Ovídio Costa. Foi uma escolha acertada? Há algum arrependimento? Teria feito diferente?
Creio não haver motivos para arrependimentos, mas é possível perceber que ali eu iniciava uma trajetória que me trouxe ao lugar social que ocupo hoje. Vim para Aquidauana, no final de 1990 para estudar História e, especificamente, estudar a presença indígena no Estado e para além de suas divisas e fronteiras. Eu estava terminando o Segundo Grau (hoje, Ensino Médio) e tinha muitas dúvidas sobre "o que eu queria ser". Estudei quatro anos na UFMS, morei em diferentes endereços, conheci pessoas incríveis com quem compartilho a amizade e o afeto até hoje (Arnaldo e Vilma Begossi, Carlos Frederico Corrêa da Costa e outros) e passei alguns aniversários na cidade.
Minha mãe veio morar comigo em 1992, quando passamos a dividir uma casa na Cohab. Com ela por perto um bolo simples, pelo menos, estaria garantido. Antes, quando criança, lembro de aniversários com festas, balões, copos e adereços coloridos. Eu não gostava muito da ideia de dividir as atenções com a minha irmã mais nova, Rita de Cássia, pois ela faz aniversário uma semana depois de mim, em 06 de julho. Traduzindo: havia sempre apenas uma festa para os dois aniversariantes da família. De qualquer forma, sempre senti, ao longo de quase quatro décadas, a ausência do meu pai nesses momentos de comemoração.
Já adulto, não vejo mais a necessidade de grandes encontros no dia 29/06 e mesmo morando hoje em dia em Macapá, não sinto falta de que cantem para mim o "Parabéns pra você". Aliás, recordo de uma cena inusitada vivida entre os índios Kadiwéu, no início dos anos 2000, em que fui convidado para o aniversário de um aluno indígena. Qual não foi minha surpresa quando cheguei à casa onde haveria a festa e encontrei as pessoas me aguardando para eu lhes ensinar a cantar a famosa música de aniversário, em língua portuguesa! Havia um bolo enorme sobre a mesa, com muito glacê, uma quantidade enorme de crianças e a ansiedade por aprenderem um "costume dos brancos". Meio sem graça, meio sem jeito, comecei a cantar e as pessoas ali presentes repetiam tudo o que eu dizia. Foi engraçado e, mais do que isso, inusitado!
Olhando para trás, depois de 43 anos bem vividos, ouso dizer que tudo valeu a pena, inclusive porque me fiz quem eu sou no contato com os índios e os não índios que encontrei pelos caminhos percorridos. Espero, também, tê-los ajudado de alguma forma a se descobrirem quem são! E para quem estiver fazendo aniversário por esses dias, o meu desejo é o de "muitas felicidades, muitos anos de vida"!
Giovani José da Silva