Cheguei a Mato Grosso do Sul nesta semana e já visitei a capital, Campo Grande, além de ter passado por Anastácio, Aquidauana, Miranda, Bodoquena, Bonito e Porto Murtinho. Nesta última cidade, sede do município onde habitam os índios Kadiwéu, tenho vivido um "carrossel" de emoções, desde as mais alegres e sublimes até as mais tristes e melancólicas! Reencontrar ex-alunos da Educação Básica, ontem crianças irrequietas e hoje homens e mulheres "feitos", recupera sensações de dever cumprido e de que ficaram boas lembranças e impressões, neles e em mim!
Por outro lado, rever parentes agora muito idosos e doentes, outrora robustos e cheios de vida e energia, trouxe lembranças de tempos passados que agora somente podem ser acessados pela memória, quando estas mesmas pessoas andavam e falavam sem dificuldades... Revi alguns indígenas com quem convivi por quase uma década (1997-2004) e pessoas queridas que "cuidaram" de mim durante aqueles anos sem energia elétrica e água potável na aldeia Kadiwéu, mas vividos com muita alegria e esperança: Dona Edir, do Hotel Flórida (altamente recomendável pela deliciosa comida e pelo carinho da recepção), Paulinho, do Mercado Aquino (sempre disposto a nos ajudar a ajudar aos indígenas). Não vi "Seo" Nirço, que era quem nos levava para a aldeia Bodoquena, trazia as novidades até nós e nos tirava de quando em quando dali, a fim de recebermos nossos salários e tomarmos água gelada!
De qualquer forma foi bom estar em contato com pessoas significativas em minha trajetória acadêmica, pessoal e profissional em Mato Grosso do Sul. Ainda que algumas te olhem e não digam nada, outras te recordem insistentemente o quanto você envelheceu e algumas te ignorem solenemente, é sempre bom voltar à "terra natal". Sinto-me murtinhense, embora não tenha nascido no município, pois aqui estão minhas raízes maternas, alguns dos sonhos juvenis mais bonitos e delirantes e, também (por que não dizer?), algumas das tragédias vividas ao longo desses quase quarenta e quatro anos de vida! Nestas terras localizadas entre o Brasil e o Paraguai, onde cresceu a minha mãe, onde viveram meus primos, tios, avós, bisavós e trisavó e, inclusive, minha irmã mais nova, vivo as boas recordações daquele jovem franzino que fui um dia, que chegou à fronteira com 24 anos de idade, cheio de ideias na cabeça, decidido a mudar os rumos da vida e se fazer professor. Aqui me tornei o Professor Nota 10, representando o município, "virei" antropólogo, depois de tanto estudar e também fiz o mestrado em História, escrevendo uma dissertação sobre a Reserva Indígena Kadiwéu e que foi recentemente lançada em livro pela Universidade Federal da Grande Dourados.
Passados todos esses anos, sinto que sou um homem em fronteiras, das fronteiras e que vive nelas e delas. Sou um fronteiriço, como tantas das gentes que já encontrei pelos caminhos de terra e de água percorridos no imenso Pantanal de Mato Grosso do Sul!
Giovani José da Silva