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Rev. Vivaldo Melo

Dona Maria e as pensões dos governadores...

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O nome acima é hipotético. Dona Maria simboliza representantes de classes que precisam trabalhar muito, ao longo da vida, em setores essenciais, para receber uma aposentadoria tão ridícula como os salários que recebem quando na ativa. Dona Maria é professora. Não tem assessores, por isto mesmo tem que ralar muito para preparar suas aulas. E no dia a dia tem que relacionar-se com alunos complicados, muitos dos quais não têm idéias básicas de valores, pois não têm sido ensinados pelos pais que, no projeto de Deus, deveriam ser sacerdotes, educadores por excelência. São frutos de uma geração que exatamente por isto tem excluído Deus de suas agendas. Ou, no mínimo, o procura de forma utilitarista, ou seja, para receber alguma benesse quando a vida se torna ruim demais. São alunos domesticamente educados pelas Xuxas e Cicarelis da vida. Alguns projetam Bin Laden como herói e acham o maior barato fumar um baseado sem qualquer reflexão sobre as desgraças resultantes da cadeia que alimenta esse e outros vícios. Dona Maria já foi ameaçada de morte e por culpa de um sistema enfermo tem que "passar de ano" , a qualquer custo, alunos que mal sabem construir uma frase, mas já carregam camisinhas na mochila e já têm várias histórias de transas prá contar. Ela sabe que isto se deve a determinadas metas estabelecidas lá fora, que precisam ser cumpridas aqui dentro. Os números precisam ser positivos. Não importa a qualidade. Os governantes precisam inseri-los em seus discursos. O povo precisa acreditar que o país está melhor. Dona Maria, enfim, por essas e outras razões, já sofreu muito, reivindicou muito... e só não entrou em depressão porque compartilha constantemente de suas apreensões com outros que vivem a mesma realidade. Aliás, é casada com um policial, o José, que como os demais colegas de farda expõe sua vida todos os dias e recebe um salário também incompatível com o que faz. Alguns fazem "bicos" para melhorar a renda doméstica.

Mas, Dona Maria está mais desalentada do que o normal, nesta semana. Soube que o governador Zeca, aquele que era um pobre sindicalista tempos atrás, vai receber a partir de 2007 uma "pensãozinha" de 22 mil reais, como o Pedro, o Ramez, etc., recebem. Contestar? Como, se as chamadas pensões vitalícias recebem aval, vejam que ironia, da Comissão de "Constituição e Justiça"? Quer dizer, outros, da cadeia de privilegiados, já acharam justo o benefício. Dona Maria não consegue entender, afinal sabe que os governadores tem assessores prá tudo. Em tese, não trabalham muito. Até os discursos geralmente nem são deles, exceto quando arriscam um improviso, e olha lá. Mas, Dona Maria ainda acredita no Brasil, porque acredita na existência de pessoas que ainda se iram com essas e outras situações. E no mais o país é nominalmente cristão e devem existir, certamente, seguidores fiéis das Escrituras Sagradas, que primam no Velho e no Novo Testamento pela justiça social. Sua esperança tem sentido, pois alguns setores da sociedade civil se articulam para protestar contra a recriação de aposentadorias para ex-governadores. Dona Maria até que gostaria de endossar o protesto. Mas, tem um problema. Ela não é concursada. E se manifestar-se , corre o risco de ficar desempregada. Ontem, depois de conversar sobre o assunto e antes de ser vencida pelo sono, abraçou o marido e com o olhar distante perguntou: "E agora, José?"

*Pastor da Igreja Presbiteriana de Aquidauana
vivaldo_ms@hotmail.com

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