Aquidauana
Marcado para o próximo sábado (2), o encontro promete emocionar a turma da década de 70
Todos carregamos consigo nossas lembranças carinhosas dos tempos do colégio. E uma em especial virá à tona com um encontro de alunos, professores, familiares e convidados da antiga Escola de 2º Grau Padre José de Anchieta, que funcionava no atual prédio do Museu de Arte Pantaneira entre os anos de 1978 a 1983.
No próximo sábado (2) as boas recordações serão relembradas com emoção após 40 anos de amizade dessa turma que deixou saudades. Organizado por uma comissão de ex-alunos do Anchieta, “O Encontro” acontece na Arena Santo Cruz, com expectativa de 120 pessoas presentes na festa.
Para Fauzi Suleiman, um dos organizadores do evento, os egressos já se mobilizam para participar do primeiro grande encontro após as 4 décadas dos tempos de escola. “Um dos colegas vem do Pará para participar do encontro, ou seja, vai percorrer cerca de 2 mil quilômetros para chegar aqui. A expectativa é muito grande”, afirmou.
Fauzi Suleiman, 54 anos, é empresário e foi prefeito de Aquidauana entre os anos de 2009 a 2012. Casado com a atual vice-prefeita da cidade, Selma Suleiman, ela também foi aluna do Anchieta e participa da comissão da festa, formada também por Mário Nelson Lima Paiva e Wanderley Camposano.
Escola Anchieta
Escola AnchietaDe 1978 a 1983, oito turmas se formaram, quatro no período matutino e quatro no noturno. Segundo a organização do evento, a escola funcionou oferecendo o curso de 2º grau intitulado “Habilitação Básica em Construção Civil”. Para os idealizadores da escola, a formação dava aos alunos, além do nível de segundo grau, a condição de concorrer em vestibulares das universidades de todo o país. “A escola tinha uma proposta diferenciada. Era final da ditadura militar e ainda assim tinha uma proposta visionária com foco na qualidade do ensino. Era muito exigente nas matérias de Exatas e, dessa maneira, formou profissionais de destaque”, explicou Fauzi Suleiman.
O “Anchieta” como era carinhosamente chamado, foi concebido pela iniciativa de quatro professores do Estado de São Paulo: Prof.ª Silvia Salles, Prof. Francisco Roberto Rossi, Prof. Julio Rossi e Prof. Claudemir Públio. Eles vieram para Aquidauana a fim de implementar a escola que tinha, segundo a visão dos alunos, um clima universitário, com liberdade de expressão e pensamento.
Conforme registro dos alunos, a ideia inicial de um dos fundadores era “poder trabalhar com os jovens de forma mais liberal, em que diversos padrões fossem deixados de lado. O importante seria, somente, a qualidade de ensino e o principal seriam os alunos”, na concepção do professor Roberto Rossi.
Ainda durante o seu funcionamento, a escola atraía estudantes outras cidades da região: Miranda, Nioaque, Bela Vista. Do Anchieta, se formaram médicos, engenheiros, arquitetos, advogados, economistas, professores, servidores de diversos serviços públicos, empresários, comerciantes, entre outros.
Escola vanguardista
Fauzi Suleiman descreveu no grupo dos egressos da escola, em redes sociais, como foi estudar no Anchieta. Comparado ao sistema tradicional de Ensino, é possível perceber o quanto os ideiais de liberdade de expressão eram valorizados:
"Após alguns dias da criação desse grupo um fato chama muito a atenção: O Anchieta nos marcou muito e a todos. Cada um de nós carrega dentro de si essas marcas.
Mais de 30 anos nos distanciam dos tantos momentos que ali vivemos e que de forma tão saborosa temos lembrado aqui.
De certa maneira, ainda continuamos a viver naquela pátria. Não pela perspectiva do saudosismo, mas pelos tantos elos que foram ativados em nossas personalidades naquele momento e que permanecem conosco até hoje e que nos permitiram enfrentar a vida adulta e sermos o que somos.
O Anchieta era uma escola que tinha como características um ensino qualificado aliado a um inédito clima de liberdade. E esse clima de liberdade era raro não apenas em Aquidauana, mas certamente, também nas escolas brasileiras daquele período. Para não esquecer: vivíamos o final do período militar.
Vários flashes pipocam na memória:
1-já no primeiro dia fomos informados de que não precisávamos pedir permissão para sair da sala de aula.
2-No intervalo, a possibilidade dos alunos tocarem violão e de ouvirmos música de qualidade.
3-A relação fraterna com nossos professores.
4-A liberdade que tínhamos.
5-O orgulho sadio de representarmos o Anchieta em eventos esportivos, culturais, educacionais.
6-As matérias que eram inerentes ao nosso curso.
7-Os eventos que promovíamos envolvendo a cidade.
8-A diversidade ideológica de nossos professores.
9-A densidade do conteúdo pedagógico.
Para mim, estudar lá foi uma revolução. Como muitos, eu vinha do Cândido Mariano. O clima era quase de caserna. Por exemplo, até nossa movimentação física pela escola era controlada pela direção.
O Anchieta provocou uma mudança em nossos eixos: fazíamos o que precisava ser feito não pelo temor a uma autoridade, mas porque era a nossa responsabilidade.
Tínhamos mais liberdade, mas a contrapartida era termos mais consciência sobre nossos atos. Isso mudava muita coisa.
Aprendemos muito na sala de aula, mas as principais lições nos foram dadas fora dela por valores que os professores conseguiram nos transmitir a partir da forma como organizaram essa escola.
Na humildade e na serenidade que caracterizam nossos professores-diretores, creio que esse deve ser um dos principais motivos de alegria pela obra que criaram.
Infelizmente o Anchieta chegou ao fim. E foi muito triste isso. Aquidauana teria sido uma cidade muito melhor se ela tivesse conseguido seguir.
Escrevi um artigo no jornal O Pantaneiro, à época, lamentando seu fechamento. É o preço que muitas vezes pagam os que estão à frente de seu tempo. Mas, como não poderia deixar de ser, houve grandeza inclusive em seu encerramento, pois a verdade é que uma das principais razões que levou a esse desfecho foi a disposição de seus fundadores de não abrir mão da qualidade de ensino que era, ao final, o grande objetivo que os movia desde o início.
Hoje aqui estamos nós, seguindo com as determinações implacáveis do tempo “esse sábio senhor”: com mais idade; senhores e senhoras; pais e mães; avôs e avós; talvez até algum bisavô, bisavó; cabelos embranquecendo; corpos mudados; rugas nas faces; cicatrizes no corpo e na alma. Mas uma coisa é certa: com maiores ou menores dificuldades atingimos nossos alvos ou pelo menos chegamos perto de onde sonhávamos lá atrás e, como diz o belo poema de Khalil Gibran, a Escola Anchieta foi “o arco através do qual fomos arremessados como flechas vivas”.
Obrigado amigos e amigas! Obrigado professores e professoras! E a cada um e a todos nós que fizemos parte dessa jornada que gerou uma bela obra coletiva com resultados intensos em nossas individualidades!
Abraço! "
Fauzi Suleiman
SORTEIO
Dezenas sorteadas são: 05, 19, 22, 44, 47 e 57
Tragédia
Acidente ocorreu na madrugada desta segunda-feira; ambulância de Aquidauana passava pelo trecho e prestou socorro
Voltar ao topo