X

Diversidade

Por trás da Mocréia que todo mundo ama, Dudy é o ator que brinca de ser mulher e brilha na arte drag

Conheça a história da drag queen mais aquidauanense de todas: Andréia Mocréia

Compartilhe:

A-

A+

O novo acordo ortográfico pode até ter feito cair o acento de "Andréia Mocréia", mas o babado, "carão" e purpurina dessa queen, não. Aos 38 anos, o aquidauanense Eduardo "Dudy" Elias dos Santos mostra que tem coisas na vida que simplesmente acontecem exemplo da sua personagem criada há pelo menos 15 anos, hoje sucesso de MS para o mundo.

Quando se entregou à oportunidade de viver da arte drag, acabou não só abraçando mas se vestindo a caráter. Hoje, se orgulha de ter sido pioneiro, de dar cara a tapa seja na televisão ou nas redes sociais  vestido da mulher mais "mocreia" de todas e "militando" em alto e bom som:

"Ser drag queen traz alegria, cor, performance, brilho vida! Amem mais e julguem menos, minha gente".

Como drag, Dudy virou pauta nacional, mas é aqui no O Pantaneiro que sua história é contata com todos os detalhes.

Seu início foi totalmente por acaso. Morando na Capital, Dudy era recém formado e, por ser muito apegado aos pais, não queria se desfazer da vida em MS. "Procurava oportunidade de trabalhar na área, mas ao mesmo tempo sabia que o gado era mais valorizado que o artista", opina.

"Pela primeira vez, fui a uma boate gay com um grupo de amigos. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha visto antes. Sempre fui muito animado e brincalhão, perto de mim ninguém ficava quieto. E tinha essa mania de gritar muito, até hoje inclusive. Nessa noite, Nany People se apresentava no palco enquanto eu garoto de interior e que nunca tinha visto um gogo boy na vida não parava de gritar por aquele deus grego de nome Maycon Colombo. No meio desse auê, a Nany viu a oportunidade de me chamar ao palco. Fiquei morrendo de vergonha, ao mesmo tempo que não perdi a oportunidade de 'gongá-la'. Conversa vai, conversa vem, entre muitos insultos e gozações, Nany me achou tão engraçado que depois do show sugeriu ao proprietário da boate que me contratasse", conta.

"Carinha de bebê": foto ao lado de Nany People, a drag e "mentora" que fez sua vida da água para a "purpurina".

Ouvindo as "sábias" palavras de Nany People, o dono entrou em contato com Dudy. "Eu precisava de um nome artístico pois já estrearia no outro fim de semana. Fui na reunião contratual junto do André, um amigo meu. Tinha o costume de chamá-lo pelo feminino, isto é, de Andréia, 'a Mocréia'. Todo mundo adorou o nome e assim nasceu uma drag que não era drag, não sabia se maquiar, se portar como mulher, muito menos andar de salto. A verdade é que eu só sabia fazer palhaçadas", se descrevia.

Porém, a vida deu uma guinada quando já no mês seguinte Dudy aliás, Andréia Mocréia começou a viajar por quase todo o MS e pelo Brasil, se apresentando em eventos e fazendo shows.

"Eu geralmente cantava paródias das músicas de sucesso da época, o que não era muito comum para uma drag queen", relembra. Não foi fácil. "Além de me introduzir nesse meio artístico, tive que aprender sobre a arte drag ao mesmo tempo em que já trabalhava com aquilo. Mas deu certo. Uma outra drag, a Gisely Pinky, foi uma como uma segunda 'mãe'. Me tornei o que sou hoje, essa mistura de Emília do 'Sítio do Picapau Amarelo' com a vovó Mafalda e o Zacarias dos 'Os Trapalhões', sem falar de sagaz como a Chiquinha, do 'Chaves', por causa da Gi", agradece.

"Por muitas vezes pensei em desistir o preconceito com a arte era imenso. Porém, o que me deu força para continuar foi a necessidade de sobreviver enquanto artista, e eu amava o que eu fazia. Sempre levei muito a sério pois se trata da minha profissão", confirma.

Levando a profissão de drag a sério, Dudy encontrou o caminho para fazer arte e ainda dar cara a tapa diariamente.
Sucesso consagrado, Mocréia virou jornalista, repórter e até apresentadora de TV; na foto, ao lado de Rodrigão.

A oportunidade de entrar na televisão veio na sequência. Uma apresentadora de Campo Grande a convidou para ser repórter do programa dela, o "Revista da Manhã", do SBT. Desde então, Dudy nunca mais sai do meio. "Acabei estudando jornalismo para melhorar minha performance, adaptando a Mocréia no formato televisivo, isto é, falando com todo tipo de público, desde a criança até o idoso", comenta o repórter.

"Faz dez anos que trabalho na TV, sempre me reinventando conforme o mercado exige. Tive a oportunidade de estar com pessoas e lugares que nunca sequer imaginei estar junto um dia, como ao lado da Xuxa Meneghel e entrevistar grandes celebridades da música e do teatro", diz. Aproveitando o sucesso nas telinhas, Dudy "fez" Mocréia gravar dois hits, o que gerou participação de bailes de funk e festas para além da comunidade LGBTQIA+.

Montagem feita por Dudy caracterizada de Andréia Mocréia ao lado da apresentadora Xuxa Meneghel, sua ídola.
Durante seus mais de 15 anos enquanto drag queen "profissa", Dudy já conheceu e entrevistou várias celebridades.

"Admiro demais aqueles que militam 24 horas por dia ou referências como Pabllo Vittar e o próprio Paulo Gustavo, por exemplo, mestres em levar a arte drag para dentro da família brasileira, em horário nobre. A comunidade regional já me criticou por 'militar de menos'. Faço isso quando posso. Aliás, o argumento que deixo é que todos os dias dou minha cara a tapa na televisão, em propagandas, nas redes sociais, e não como o ator e jornalista, mas vestido da drag mais mocreia de todas", afirma.

Dudy revela que, nesse processo de se tonar a drag consagrada de hoje, seus pais testemunharam o crescimento do filho e em suas palavras o apoiaram incondicionalmente. "É claro que quando você chega ao nível da televisão, que todo mundo acompanha e opina, a coisa muda de tom. Independente das minhas escolhas, eles sempre estiveram lá para levar respeito e aceitação, o que me traz maior orgulho".

"Independente das minhas escolhas, meus pais sempre deram maior apoio", confirma a queen (Foto: Luciano Muta)

Filho de cristãos, até hoje Dudy segue com os preceitos de Deus, que julga ser a palavra sagrada: o amor. E foi no universo da fé que teve seu primeiro contato artístico, muitos antes de surgir com a Mocréia. "Na Igreja Presbiteriana, estudei música e pratiquei um pouco de teatro. Já na escola, sempre acaba me envolvendo em algum segmento artístico".

Na adolescência, entretanto, com um vasto histórico de festivais, ele decidiu levar a sério. "Queria ser um artista a qualquer custo. Comecei a participar de programas de calouros, em rede nacional, como o Programa Raul Gil, Popstars, Fama, Ídolos, entre outros. Em uma dessas idas, ainda bem jovem, um dos jurados sugeriu que eu fizesse artes cênicas, porque até então ainda era muito tímido". O resto é história.

"Dudy e Mocréia por muito tempo foram um só. Cheguei a ponto de esquecer que eu era um ator e ela a personagem. Na maioria das vezes, tenho que 'ser' a Mocréia 24 horas por dia, não necessariamente vestido, mas escrevendo, falando e pensando como ela".

Registro de Dudy novinho durante as seletivas do finado programa de talent show brasileiro "Ídolos".
"Na igreja, estudei música e pratiquei teatro. Já na escola, sempre acaba me envolvendo em algo artístico", conta.

Vida que segue  Com a chegada do "novo normal" da pandemia, muita coisa mudou para a queen. "Televisão nunca foi minha maior fonte de renda e sim meus shows, todos cancelados. Tinha acabado de estrear também num quadro de vídeo no site Campo Grande News, mostrando eventos e baladas da cidade, mas a covid interrompeu o projeto. Ainda conto com uma coluna de fofocas no Jornal O Estado e também faço reportagens para o programa "Lucas de Lima na TV," da Record. Isso tem me mantido de pé, além de continuar como influenciadora queer nas redes sociais", elenca.

Montagem de Mocréia em suas diversas participações na televisão sul-mato-grossense, no caso a emissora SBT MS.

Para quem sonha um dia trabalhar na arte drag, Dudy pede confiança. "É possível ganhar dinheiro sim, vencer e chegar onde você bem quiser. Basta disciplina e comprometimento com a arte. Se trata de uma profissão como outra qualquer, exigindo técnica, empenho e suor, e não apenas dando 'close' toda hora, se pautando só na brincadeira e diversão da personagem", sugere.

E para fechar: "se lembra daquele tal de Maycon que eu só gritava seu nome enquanto atrapalhava o show da Nany People? Pois bem, ele se tornou um dos maiores gogo boys do Brasil. Tive a honra no ano passado de me apresentar na gravação do seu DVD, mesmo sem que ele nem se lembrasse desse bafo! Vamos deixar só entre agente", brinca.

Cartaz de evento em que Mocréia aparece ao lado do gogo boy Maycon, o mesmo da história contada na reportagem.

Considerado Mês da Diversidade, junho até pode ter acabado, porém O Pantaneiro continuará a contar histórias da nossa gente, promovendo reflexões sobre respeito, amor e aceitação independente de gênero e sexualidade.

Compartilhe com a gente! Envie agora sua sugestão de pauta.

 

VEJA TAMBÉM

ÚLTIMAS

Após impeachment, ex-presidente do Paraguai é colocado em prisão domiciliar

INTERNACIONAL

Após impeachment, ex-presidente do Paraguai é colocado em prisão domiciliar

Santiago Peña deixou o cargo em meio à crise do banco Ueno; vice Pedro Alliana assumiu o governo

Reforma tributária exige planejamento e atenção redobrada no agronegócio

AGROCASTMS

Reforma tributária exige planejamento e atenção redobrada no agronegócio

Especialistas da AgroAlliance explicam como as mudanças na legislação podem impactar produtores rurais e empresas do setor

Voltar ao topo

Logo O Pantaneiro Rodapé

Rua XV de Agosto, 339 - Bairro Alto - Aquidauana/MS

©2026 O Pantaneiro. Todos os Direitos Reservados.

Layout

Software

2
Entre em nosso grupo