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Mãe presta homenagem

Vítima da covid, professora de Aquidauana faria 37 anos nesta quinta

Marlene Ricardi de Souza recorda a trajetória da filha, marcada pelo amor a Aquidauana, à ciência e à educação; Grazielly morreu em março de 2021, após lutar contra a covid-19

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Grazielly Ricardi de Souza completaria 37 anos nesta quinta-feira / Arquivo pessoal/Cedida ao O Pantaneiro

Há homenagens que carregam muito mais do que lembranças. Elas guardam histórias, pequenos detalhes de uma vida e, principalmente, o amor de quem continua encontrando maneiras de manter viva a memória de alguém que partiu.

Nesta quinta-feira (24), data em que Grazielly Ricardi de Souza completaria 37 anos, a mãe, Marlene Ricardi de Souza, decidiu transformar a saudade em palavras. Em um relato que percorre desde o nascimento da filha, em Aquidauana, até sua trajetória como bióloga, professora e pesquisadora, Marlene relembra a menina que sentia falta do tereré na calçada, a jovem que escolheu voltar para sua terra natal e a educadora que fez da ciência uma experiência vivida pelos alunos. Ela lecionou na Escola Roberto Scaff, em Anastácio, e nas escolas Marechal Deodoro da Fonseca e Prof.ª Marly Russo Rodrigues, ambas aquidauanenses.

Grazielly morreu em 04 de março de 2021, aos 31 anos, depois de passar 17 dias internada no Hospital Regional Dr. Estácio Muniz, em Aquidauana, durante a pandemia de covid-19.

No texto abaixo, publicado na íntegra, Marlene revisita memórias, aprendizados, afetos e a trajetória da filha. Mais do que contar uma história, ela deixa registrada uma declaração de amor à “profi Grazi” e a todos aqueles que fizeram parte de sua caminhada.

Tributo à Grazielly

"Grazi nasceu em 24 de setembro de 1989, às 17h15, no Hospital Funrural, num domingo com temperatura amena, em plena Aquidauana.

Fez o prezinho na Escola Cejar e as séries iniciais; depois, foi para a Escola Cândido Mariano. Em meio à sua adolescência, nos mudamos para Campo Grande. Grazielly foi contrariada, ela tinha doze anos. Não gostou de morar em Campo Grande, sentia falta dos amigos, dos vizinhos, do tereré na calçada de casa, aqui no bairro José Fragelli, em Aquidauana.

Chegou o vestibular e ela, em silêncio, se inscreveu para o campus da UFMS de Aquidauana. Passou em sexto lugar na classificação geral, para Biologia, e veio fazer a faculdade na sua terra natal, a terra que ela sempre amou. Grazi retornou para casa, para sua bela e graciosa Aquidauana.

Grazielly se formou em Biologia, amava por demais animais e plantas. Se tornou professora, daquelas educadoras dedicadas, preocupadas com as crianças, os adolescentes e suas vidas. Buscava ampliar o conhecimento dos seus educandos, com experiências práticas em sala de aula, na horta que construiu com seus alunos e alunas.

Da horta, ela levou os produtos para a merenda escolar. Ensinou a importância dos alimentos, dos sucos naturais, experimentando e transmitindo saberes e sabores na escola, com a comunidade escolar. Com práticas simples e inovadoras para jovens que estavam na flor da idade e no limiar de seus sonhos, ora mais tranquilos, ora mais ousados.

Ensinou a importância do aprendizado concreto, levou seus alunos e alunas, crianças e adolescentes, ao laboratório, que ela mesma reformou, com recursos próprios. Ensinou ciência, genética e como “separar” o DNA, se é que a palavra é “separar”!

Grazi, a profi Grazi, amava as cores, os sabores da terra, amava chita, decoração, maquiagem e estudos. Em meio a tudo que fazia, tinha um colorido infinito, uma marca, uma assinatura: Grazi. Quem a conheceu e frequentou sua casa sabe das chitas nas janelas, nas portas, na parede do quarto.

Para ela, jovem professora, estudar era uma arte. Estava no mestrado, na UFGD, mas, antes, já tinha feito Especialização em Ensino de Ciências, no campus de Aquidauana da UFMS.

O mestrado era em Ensino de Física, física, física mesmo! Aquela difícil. Eu dizia: “Eita, filha, você é muito inteligente!”

Ela: “Bondade sua, mãe, bondade sua!”

Grazielly estava pesquisando os efeitos das queimadas nas águas da região de Aquidauana. Era uma senhora pesquisa, tinha seus alunos e alunas envolvidos nesses estudos. Estava num momento de muita pesquisa, estudos, aulas e, então, veio a pandemia, o coronavírus!

A pandemia foi avassaladora, destrutiva, dolorida, dilacerou corações, pulmões e órgãos inteiros. Vidas, famílias ceifadas, destroçadas, dilaceradas.

E... da noite para o dia, Grazi adoeceu, foi contaminada, pega por um vírus altamente destrutivo, lutou e lutou, como uma grande guerreira. Lutou bravamente pela vida por dezessete dias no Hospital Regional de Aquidauana.

Mas o vírus foi implacável. O intensivista me dizia: “Mãe, o vírus foi muito agressivo com a Grazi... mãe, o vírus está sendo muito agressivo com a Grazi. Mas nada é impossível para Deus!”

E Deus... quis tê-la com Ele de volta ao seu ninho, à sua casa de origem.

Hoje, no aniversário de nascimento da Grazielly Ricardi de Souza, presto essa singela homenagem.

Agradeço a Aquidauana, aos amigos e amigas da professora Grazielly, seus alunos e alunas, aos seus e suas colegas professores e professoras e a todos aqueles e aquelas que conheceram e conviveram com a minha filha, GRATIDÃO!

Vocês são imprescindíveis a todos que os cercam!

Minha filha é uma preciosidade, mesmo em outro plano ela é a minha melhor filha!

Gratidão, Grazi, por tudo!

Gratidão, professora Grazielly!!"

Marlene Ricardi de Souza - Mãe da professora Grazielly

Chita no quarto da professora Grazi (Foto: Arquivo pessoal/Cedida ao O Pantaneiro)
Porta da casa da professora Grazi (Foto: Arquivo pessoal/Cedida ao O Pantaneiro)
Estúdio de maquiagem da Grazi - (Foto: Arquivo pessoal/Cedida ao O Pantaneiro)
A foto central mostra Grazi no morro do Paxixi, em Aquidauana (Foto: Arquivo pessoal/Cedida ao O Pantaneiro)

 

 

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